Eu ainda posso sentir você aqui

  Vestida de preto andando sobre despedaçadas pétalas brancas, cada uma era uma parte de mim, consumida pela dor. Nas mãos, um pequeno objeto vermelho, indecifrável mesmo àquela distância. Um vermelho forte, daqueles que chegam a arder os olhos pela tamanha intensidade. O objeto se mexia em pulsações coordenadas.
  Andei sobre cada parte, moendo o que já eram apenas destroços. Não doía mais. Nos olhos uma lágrima e na boca palavras contidas, caladas. Havia alguma coisa escrita naquele pequeno objeto, mas eu não podia distinguir. Eu apenas fitava. Vaguei o olhar por toda aquela imensidão, os ventos espalhavam as pétalas, confundindo qualquer resquício de razão.

Diante toda a fumaça branca, um rosto conhecido surgiu, com um sorriso encantadoramente contagiante. Ele não me dizia nada, apenas sorria e me olhava com o brilho dos olhos mais radiantes. Chorei, tentando correr em direção ao rosto. Sacudí-lo aos prantos, agarrei-o com todas as restantes forças. Ele se esquivou, sem mudar a feição. “Por quê?” – eu peguntava.

Olhei para trás, vi duas menininhas correndo de mãos dadas, sorrindo. De repente, uma delas tomou um caminho diferente, deixando a outra com o que parecia ser uma feição de desentendimento.

Fui tomada pela veracidade dos acontecimentos, fitei o rosto novamente, agora entendendo mas não acreditando. Eu me debatia, debulhava-me em lágrimas, gritava. O rosto me olhou, ergueu-me e, novamente, sorriu. Finalmente me entregou um pequeno bilhete e sumiu.

Encontrei-me fitando o vazio, a dor que supus já ter absorvido-me por inteira, doía muito mais agora. Como se de algum jeito aquilo pudesse doer mais. Em minhas mãos encontravam-se um bilhete e apenas metade daquele objeto vermelho. Eu sorri. Levantei-me tentando achar o caminho de volta. Não encontrei, mas continuei vagando.

Absorta, acordei com o toque do telefone, um número conhecido na tela. Atendi, tentei encontrar sua voz em meio a tantas que turbilhonavam meus tímpanos. Não encontrei. Apenas a saudade falava comigo agora, da outra linha. Ela disse que veio para nunca mais ir embora, que iria me acompanhar durante toda minha caminhada na Terra.

Meu sonho, que eu tanto temi, agora tornava-se realidade. Vasculhei os cantos até encontrar a luz. Encontrei em minhas mãos pétalas brancas de uma flor que havia sido despedaçada, no meu peito a dor dominava minha mente e meu corpo, uma dor devastante que não cabia em mim. Em minha mente, que ainda negava os fatos, mesmo sob todas as circunstâncias, seu sorridente rosto, que agora pertencia somente às lembranças. Na minha cabeceira continha apenas metade do meu coração e um bilhete seu. Ao meu lado alguém que jamais sairia dali, a saudade.

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