Súbito

Eu não sabia no que podia fielmente acreditar. Enquanto sua boca me dizia palavras que antes surtiriam algum efeito, seus olhos agora me diziam o contrário. Era uma espécie de sinal que eu insistia em analisar, mesmo quando você fugia dos meus olhares investigativos.

A luta interna começava como aqueles arranca-rabos que vemos constantemente, uma discussão sem fim. Depois os motivos começavam a envolver todo um complexo, mexendo, inclusive, com coisas aleatórias e despercebidas. Eu realmente estaria ardentemente apaixonada a ponto de não olhar a fundo? Tantas promessas feitas após longos e sofridos aprendizados, agora, se repetiam. Então, errar e aprender continuava a ser um ciclo vicioso e infinito?

Contava os segundos, os minutos, até eles se transformarem em horas. Perdidas horas que o dia seria incapaz de substituir. Horas incessantes. De um lado para o outro, como se, de alguma maneira, eu ainda pudesse fugir de toda aquela confusão que parecia ter tomado conta e pegado forma. A forma do meu corpo.

Novamente seus olhos, que antes costumavam ser a incógnita benéfica, agora eram terríveis nas lembranças. Chamas mal intencionadas ardiam fortemente, era algo que eu não gostava. Tentei reconhecer um resquício daquele você que costumava ser ‘eu’, quando estávamos juntos. Procurei ouvir as repetidas palavras de declaração, que agora soavam completamente fúteis.

A confusão se expandia, mais e mais, naquele restante espaço dentro de mim. Procurei formas de dispersão, até involuntariamente, fitando minhas pernas recebendo os fracos raios solares que incidem de manhãzinha, em pleno inverno. Eu procurava sentir alguma lembrança da sensação do calor. Meu subconsciente parecia ter vida própria, uma consciência própria, que sabia exatamente quando queria doer.

brokeup

Eu ainda podia lutar. Eu sabia que era forte, só não sabia o limite. Eu estaria realmente disposta? – seria a pergunta certa a se fazer. Só a lembrança do seu rosto repugnava minha mente. Mas era difícil me desvencilhar de todo aquele súbito desejo, inexplicavelmente dominador, que contaminava meu corpo. Como quando adquirimos aquelas pequenas manias que com o tempo começamos a adorar. Eu não podia encarar aquele fato como uma simples mania. Eu estava lidando com você.

Os ponteiros do relógio não faziam barulho, mas passavam rapidamente pelo seu ponto de partida, assim como minha mente, que a cada volta retornava ao fim de seu novo começo. De um lado para o outro. A confusão ainda se expandia, a impressão era de que se externar seria seu único objetivo.

O simples fato de caminhar até a cama tornou-se uma procissão, o mesmo caminho de todas as noites, com as mesmas pedras, com as mesmas feridas que demoravam a cicatrizar. Eu podia até visualizar as velas e as orações, que soavam mais como pedidos desesperados. Eu pude ver seu rosto, por entre os feixes de luz, me condenando. Nós éramos vítimas se entreolhando e sabíamos o que aquilo significava. Você não quis acreditar e eu ainda relutava. Era insuficiente e inútil, o desfecho era previsível desde o começo.

As chamas realmente queimavam, não eram mais apenas calorosas, como aquele antigo calor em que costumávamos partilhar. O peito ardia em dor, a consciência se orgulhava em repetir que estava certa. E era, era realmente certo. Deixar levar-se pelos ímpetos das emoções não era uma coisa que costumávamos fazer.

Lembrei do primeiro encontro. Um pequeno arrepio em minha nuca me fez sentir medo, pela primeira vez. O desejo tinha ficado claro, evidente. Era recíproco. Eu não podia me ver, mas eu sabia que era.

No fim das contas, era inútil. Estava claro que todo aquele ardente sentimento não influenciava mais como costumava. A consciência ainda se orgulhava e eu continuava a procissão. “Insuficiente”, eu repetia, mas seu olhar não mudava. Exceto pela expressão de dor que agora dominava seu rosto. Para provar que isso também me machucava, tentei fazer com que minhas lágrimas pudessem ser um sinal de “eu também” subentendido. Eu nunca quis deixar aquele momento como deixei, eu nunca quis deixar todas as questões sem suas devidas respostas, eu nunca quis deixar que aquela expressão de dor, um dia, dominasse você.

Eu não quis, mas tive. Era mais complicado do qualquer um poderia imaginar, era demais, era pesado. Eu não estava suficientemente pronta. Seriam muitas responsabilidades que requeriam forças que já estavam desgastadas dentro de mim. Era exigir muito mais do que um dia eu imaginei aguentar. E eu já estava tão machucada quando você me encontrou…

Desenhava planos para o futuro enquanto andava pelas ruas. Planos que não inseriam algo tão intenso. Por isso, também, algo em mim me fez acreditar que essa pequena caminhada era apenas mais uma de tantas. Certamente eu te encontraria em outro lugar, em outro momento. Talvez não andássemos mais de mãos dadas, mas meu caminho já tinha encontrado o seu, não tinha?

No meio de meus devaneios, a procissão terminara. Seu rosto agora tinha sido marcado num canto da minha mente. Enquanto eu me revirava, a confusão se acalmou e ganhou uma tímida companheira: a culpa.

As horas passavam e eu nem podia adivinhar que você continuava lutando.

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