Entorpecente

Injetei veneno em minhas veias esperando corroer tudo por dentro. Eu não procurei antídoto, eu quis saborear a dor. Meu peito tentava fugir da corrosão. ‘Logo as angústias vão terminar, apenas se deixe corroer’, acalmei-o. Ele persistia, gritava. As lágrimas caíam formando um imenso mar de desespero, como última válvula de escape. Segurei minhas cordas vocais antes que elas pudessem proferir qualquer palavra. E continuei segurando, durante toda a luta, esperando o próximo sintoma.

As imagens começaram a surgir, como aquele último filme da sua vida que roda em sua mente.

Eu costumava me sentir segura. Protegida e rodeada da maior sinceridade que eu nunca havia sentido. Caminhando sem medo. Tendo tudo o que eu sempre precisei. Não recordo direito o começo de tudo, mas foram mudanças que se desencadearam numa velocidade que apenas um piscar de olhos bastou. Eu vi o que eu acreditava ter sido verdadeiro se tornar completamente diferente. Tentei ignorar. Fiquei quieta. Protegi aquilo que me machucava, a princípio, já que constituía um sentimento de amor recíproco. Mas que tipo de amor rouba você de você, aos poucos, pra tentar complementar a si mesmo, tentando ser como você? E pior, como ver suas vontades sendo sugadas, assim que surgem, para algo completamente diferente, que não faz sentido algum, e ainda tendo que fingir ser algo normal?

Me afastei por princípios. Eu sabia que machucaria, que seria totalmente incompreensível. Mas eu precisava fugir antes que eu fugisse de mim mesma. Precisava colocar em primeiro plano aquilo que seria mais importante: minha saúde mental. Minha vida. Tentei me reconstituir aos poucos. Eu já possuía uma dor incurável, que foi completamente ignorada com atitudes impensáveis. Tentei manter meus pensamentos longe, tentei me cegar, não me envolver. Fui tachada de fria, falsa, doida. Sempre agüentando. Não me importando. Aliás, eu prometi que não me importaria. Cheguei a pensar que as pessoas tinham mudado. Vi que quem tinha mudado era eu, e os outros continuavam a ser o que sempre foram. O que eu não vi. Dei passos sem rumo. Derrubei tijolos frouxos dos antigos muros que tive orgulho em deixar pra trás. Apreciei os ruídos em silêncio, sempre absorvendo. Tentei manter o que eu costumava ser, mesmo não sendo mais a mesma.

Vi tudo cair e esperei sentada a visão dos escombros, apenas. Senti a insistência das pedras que tentavam me machucar, ainda. E imperceptivelmente elas conseguiam. Persisti na mudança mesmo sem saber por onde começar. Eu lutei, incontáveis vezes, sem receber algo em troca. Aguentei olhares que não se importavam. Tive que falar, ao invés de contar com alguém que pudesse parar e olhar o que estava nítido no meu olhar. Perdi portos seguros, tendo que aceitar, deixando a vida seguir seu rumo natural.

Agora, eu me debatia naquele quarto escuro. As convulsões ganhavam força, eu me vi desistir, eu vi tudo acabar. ‘NÃO!’, foi o grito que escutei. Meu peito finalmente tinha encontrado algo que eu não podia ignorar. Me lembrei das flores que colhi durante o percurso, que fizeram o caminho ser maravilhosamente doloroso. A última imagem que o filme me deixou, ficou congelada. Tristeza em faces que não combinavam com esse sentimento. E lá atrás estava eu, forte, feliz, decidida, teimosa. Como sempre fui. Eu não podia estar fazendo aquilo. Não era algo que eu faria.

Apliquei o antídoto poucos segundos antes que o veneno me consumisse. Apaguei. Não senti nada além de um estranho abraço que envolvia meu coração piedosamente. E havia uma canção, lá no fundo, que dizia: ‘Eu quero viver mais, eu quero sentir mais’.

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