Pesado demais

     Nossas brigas foram muitas, os motivos diversos e os ressentimentos foram demasiados. Começávamos a brigar por nada e os motivos se perdiam e mudavam de direção constantemente sem alterar nem diminuir nossa raiva. Aquela uma não começou diferente, nem menos boba, mas de repente tomamos um sentido novo e totalmente pesado e nossas palavras se tornaram armas. Enquanto as armas eram psicológicas eu ainda te odiava, mas me surpreendeu quando um sentimento de amor profundo me rodeou e me abraçou no instante que eu vi com meus olhos você apontando uma arma para mim, e dessa vez a arma era concreta. A pose não durou um segundo e sua mão já foi se mexendo e se virando para sua própria cabeça. O sentimento dessa vez foi mais forte ainda, eu queria correr, pular tirar aquela merda da tua mão, me atirar sobre seus braços e dizer que tudo ficaria bem. Lembro de pensar que não tinha bala nenhuma na arma e que era tudo um teatro seu, mas isso não durou por muito tempo e o medo de te perder foi me tomando mais e mais. Lembro também de correr em sua direção de amaldiçoar a distancia daquela sala gigante e tocar no seu braço algum tempo antes de ouvir o tiro. Acho que gritei enquanto corria, coisas sem sentido provavelmente, mas com certeza algum tipo de som saiu da minha garganta, pois lembro de senti-la arder ao chegar ao seu lado. Que estava chorando é obvio, alias acho que aquela foi a primeira vez que chorei de amor por você e não de ódio. Mas assim que ouvi o som da bala saindo e atingindo alguma coisa me desesperei, e assim que vi minha mão cheia de sangue jurei que tinha te perdido. De repente veio a dor, e para minha surpresa, não só a dor emocional, mas a física também. Demorei algum tempo para associar a dor ao sangue e perceber que tinha caído no chão, imóvel. A próxima coisa que eu me lembro é de sentir suas lágrimas em meu rosto e de tentar dizer que estava tudo bem, eu te perdoava. E depois, tudo preto. 
Então estava eu e você, juntos, sentados no carro seus olhos fixos num objeto ao lado da porta. Abri a boca para falar e não consegui dizer, apenas “pi… pi… pi…” em movimentos ritmados como batidas de um coração fraco. Sai do carro e fui ver o que tanto você fitava. Não acreditei quando vi meu corpo ali estendido no chão, sem vida. Mais uma vez abri a boca e tentei gritar, mas nada saia alem de ” pi… pi…” dessa vez numa freqüência maior, como se seguissem meu desespero. Vi as garrafas de cervejas vazias ao seu lado e suas mãos apertadas no volante. Me apavorei. Eu não estava morta, eu não podia estar morta, e você não poderia pensar em se matar por mim, eu estava ali do seu lado nunca tinha saído dali. Gritei mas a porcaria do “pi…” insistia em aparecer. Você pisou no acelerador e não soltou, e em seguida um clarão.
Acordei no hospital com sua mão sobre a minha barriga e agradeci por você estar ali. Te acordei e te beijei como se fosse nosso primeiro beijo. Começamos a chorar e nos abraçar sem falar nada. Alguns minutos depois sua voz quebrou o silencio: “Você esta bem agora, a bala pegou de raspão. Eles tentaram de tudo, mas não conseguiram…”.
 “Não conseguiram o que? Eu estou viva não estou? Então…” falei. 
 “Você perdeu muito sangue, eles tentaram, eu vi, mas…” e então as lágrimas que haviam brotado há muito tempo no canto dos seus olhos começaram a rolar. “Eles não conseguiram salva-lá. Nossa filha. Eles fizeram testes em você e descobriram que você esta grávida. Você estava grávida. Mas agora…” disse ele pausadamente. 
Não sabia o que dizer, não sabia o que pensar, tudo aquilo era novo para mim, tudo. Então apenas deixei minha cabeça se esvair e deitei com ele, juntos de novo.

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