Aqui jaz um passado

Se eu dissesse ‘fique’, eu sabia que tu ficarias. Assim como eu soube no dia em que mandei você sair e você deu as costas. Não quis causar nenhum tipo de mal entendido, confundindo-te, esperando justamente o contrário daquilo que proferi. Quis que você lutasse. Utilizasse todas as forças que um dia eu jurei, pelas suas palavras, que você tinha. Eu esperava. Aliás, esperar demais sempre foi meu erro.

Nunca desacreditei na intensidade do sentimento que nos levou a ficar juntos. Eu colhi e cultivei cada parte que você me deu de si, naquela noite. Eu acreditei até o último instante que você continuaria sendo você, e que nós seríamos exatamente o que éramos, no início.

Eu deixei você partir, tantas vezes, sabendo que continuaria pertencendo a você. E você sabia, lá no fundo, que eu sempre voltaria. E voltei. Mais de uma vez. E voltaria tantas outras vezes, esperando aquelas velhas sentenças, volta-pra-mim ou eu-ainda-te-quero. Ansiava. Almejava o dia em que eu sentiria o calor dos braços já conhecidos.

Deixei você ir, da última vez, jurando a mim mesma que não voltaria. Mesmo pertencendo a você, até o fim. Deixei. Sofri as conseqüências calada. Não havia o que questionar. Eu devia ter te dado respostas, mas eu simplesmente não consegui as digerir e muito menos vomitá-las aos seus ouvidos como se fossem banais. Como se tudo tivesse sido banal. Não. Nunca teria sido. Nunca foi.

Exatamente como o amo agora, amei-te antes. Exatamente como o amarei, ainda. Mas aquele incômodo não passou. E eu não poderia pertencer-te quebrada. Como um velho artefato de decoração, que é mantido apenas pela apegação e não por ser útil, mais.

Agora me encontro parecendo uma tola. Esperando um sinal qualquer, que já havia recebido inúmeras vezes sem dar a devida importância. Eu sabia da importância que tinhas pra mim. Da exuberância que meu peito ganhava a cada dia que a certeza de estar ao seu lado aumentava. Mas só quando me encontrava cega, eu enxergava. E isso me levava a crer que poderiam ser armadilhas dos sentimentos, que resolviam aparecer justamente quando eu mais precisava, que ganhavam tamanha intensidade que eu podia jurar ser real. Eu ainda não sei se eles são reais..

Procurei entender a mente. Mas cada vez que eu tentava imergir, perdia-me do rumo e quase morria afogada nas tentações da loucura.

Mais um agosto passou. Tremendamente atolado de acontecimentos cruéis que me fizeram ter mais dúvidas sobre a veracidade de todas as coisas. Estudei dicionários, livros, pensamentos. Tentei encaixar todas as palavras em todos os momentos. Mas eram tantos momentos… E tantas palavras…

Continuei te acompanhando. De longe. Entre o silêncio. Quis sortear os discursos mais bonitos que fiz – que compunha quando estava indo embora sabendo que eu não iria te dizer – e servir-te de banquete. Fiquei entre o ir e não ir, e no meio de tanta hesitação eu esqueci que já estava lá. Era tão insuspeito que você sequer percebeu.

Enquanto meu corpo pedia mais de você, eu negava. Era um desejo incondicional, que fazia a minha razão perder os argumentos e apenas se segurar. Eu não pensava. Agia deixando o calor nos envolver. A entrega era maior e verdadeira. Fazia as células de minha pele se enrijecer a cada toque seu. Faziam meus pulmões buscar mais oxigênio, tentando reaprender como se respira. E, naquele momento, eu juro que não saberia dizer se todo o movimento da caixa torácica em função dos órgãos importaria algo.

Inversamente a todo o princípio da história, o meio se tornou confuso. Minha própria capacidade de dificultar as coisas quando elas começam a ser tão intensas em mim, e tão importantes, transformaram o fim na previsibilidade. Me afundei nos pensamentos e a razão se aproveitou para conseguir angariar seu espaço e brigar com os sentimentos. E a quem eu deveria dar o troféu?

Quis gritar ‘não se vá, não assim’, enquanto você continuava a dar os reversos passos. Mas eu era impotente. Eu já estava dominada. Você partiria, mais uma vez. E eu não voltaria. Eu não podia. Seria mais uma vitória que a razão se gabaria, com mais um troféu em mãos, sobre a emoção, no final de tudo. Era um ciclo vicioso que eu tinha mania em me deliciar. Como se me punisse fazendo-o sofrer.

Resolvi sucumbir toda a dor sozinha. Você se perguntava por que eu simplesmente não deixava tudo pra lá e fosse correndo, com você. Que você não seria feliz sem mim. Que tudo aquilo faria ambos sofrerem..

Tudo o que eu sabia responder era ‘não sei’.

Se eu te amava, por que, ainda assim, insistia em me manter longe de ti? Qual era o motivo de meu corpo simplesmente assumir uma atitude desproporcional ao desejo? Por que meu coração não acatou a essa decisão de minha mente e não me deixa viver um só momento em que não haja lembranças suas?

Eu te amo. Essas são as palavras que a minha razão continuou a prender utilizando todos os recursos mais eficientes. São essas palavras que a minha emoção não conseguiu cuspir. São essas palavras que eu julgo como proibidas. São essas palavras que encerram todos os discursos que eu mira bolei. São essas palavras que dizia a mim mesma, em silêncio, toda vez que nos despedíamos.

Se as tivesse dito, mudaria algo?

E nesse desespero em que me vi, já cheguei a tal ponto de não assumir nenhuma posição. E nem me obrigo a fazer. Finalmente acatei totalmente a razão óbvia. Num dia em que uma simples frase ganhou uma interpretação que, diferentemente, teria passado como simples palavras jogadas no ar.

Agora meus discursos acabam em uma única palavra.

Passado.

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