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  Tenho escrito menos, por questionar menos. Por não me importar mais com todas aquelas questões que me fizeram perder noites e dias, e por pouco a cabeça, de tanto martelarem em minha mente procurando respostas cujas jamais encontraria. Porque é isso afinal que acontece, justamente as questões fundamentalistas são aquelas sem resposta.

   Não quis saber de onde viemos, nem pra quê nos criaram. O que tanto me tirava o sono era saber o que restaria, no final de tudo. Se é que alguma coisa nos aguardava logo em frente, se temos mesmo uma missão e qual seria ela, afinal. Foi procurando tanto que cada vez que a resposta chegava em minhas mãos ela logo travava de fugir por entre meus dedos.

   Os dias passaram rastejantes e, na sua lentidão, me corroeram por dentro, dilacerando cada partícula de mim fria e vagarosamente. Minha mente gritava de dor e não havia nada que eu pudesse fazer. Nem uma morfina ou uma anestesia qualquer. Eu tinha que deixar ela gritar e tentar ignorar, por mais ensurdecedor que pudesse ser. Achei que ficaria louca, já haviam me alertado que imergir demais em questões tão complexas poderia ser um caminho sem volta, mas eu sou curiosa demais pra largar algo no meio do caminho.

  Minhas questões iam de uma simples ida à igreja até o fim do mundo. Questionei cada comportamento, cada coisinha. Passei os dias fazendo uma contagem regressiva para o fim de tudo. O fim da minha dor, o fim das questões, o fim da guerra interna. Eu agüentei mais do que achei que conseguiria e talvez eu tenha testado tanto os meus limites, que vi que eles são muito maiores do que eu pensava. Hoje eu já não duvido da profundeza que podem ter.

   Eu não via motivos para continuar, eu não via propósito em nada do que eu fazia. Tudo que eu tinha em minhas mãos eram meus sonhos pra um futuro que parecia demorar para chegar. Foi o ano que mais me sacrificou, no ponto de vista mais perturbador possível. Eu me via todos os dias sentada numa sala com milhares de pessoas falando ao meu redor, entupindo meus tímpanos de maneira absurda, e eu só me perguntava: por que eu estou aqui? Comecei a colocar máscaras e sorrisos de falsa alegria no meu rosto. E era assim que eu levava, dia após dia, tentando relevar, tentando não aparentar. Meu problema sempre foi ser calada e reservada demais. Querer que os outros estivessem no mesmo patamar de mentalidade, com os mesmos princípios, com a mesma percepção. Mas nada é proporcional. Fui deixando que as pessoas se aproximassem de mim e fui dando apenas o que recebia. A verdade é que não dá mais pra entregar seu coração pra alguém sem ter uma segurança criada com o tempo e a empatia. Já sofri demais com canibais que trucidaram meu músculo em sua fome destruidora. Mas dessa vez o canibal era a vida e eu não tinha defesa, eu tinha que aceitar seu ataque. Senti que eu não vivia mais, apenas existia.

   Depois que você perde alguém você começa a rever todos os aspectos da vida. No meu caso, por ter sido alguém tão especial, a análise foi mais profunda. Eu me fechei por inteiro. Calei minhas cordas vocais pra abrir meus olhos e meu cérebro. Na verdade, meu primeiro instinto, foi querer sair correndo guardando todos que eu amava no meu bolso pra que nunca fossem arrancados de lá. Mas era assim que tinha que ser. É a natureza. É o percurso natural que não podemos escapar.

   Mudei alguns hábitos, crenças, pensamentos. Me afastei, magoei aos outros e a mim mesma. Me tornei mais objetiva quanto minhas vontades e mais determinada nas realizações. Foquei meus princípios e só quis que o tempo passasse o mais depressa possível pra que eu pudesse tentar começar a agir por mim, só que cada vez que o tempo passava eram mais dores, eram mais pesos caindo sobre minha cabeça e sufocando meu peito. Eu quis, então, fugir e me refugiar em um lugar distante na espera de tudo passar. Até eu me perguntar: “do que vai adiantar fugir”?

  Tenho que dar graças por sempre ter tido algo a minha volta que me desse um chão por onde andar e uma luz que eu enxergasse mesmo cega. Coloquei máscaras em meu rosto por muito tempo, mas dessa vez eu tinha que fazer elas se tornarem realidade. Desconfiei de muitas coisas que meu coração tratou de fazer com que eu confiasse nele e continuasse seguindo. Estou me reerguendo aos poucos. Conquistando coisas aqui e ali. Abrindo os olhos mais claramente e colhendo os frutos da confiança que meu coração depositou. Tenho sorte dele saber escolher a dedo e muito bem. Tenho sorte de ter sido rodeada por pessoas de coração puro, que por mais distantes que estivessem, sempre estiveram ali. Por ter recebido um amor desses, que já não tenho coragem de levantar aos céus e pedir alguma coisa, sou só agradecimentos.

  Não há nada que eu faça que mude o que passou. Não há nada que eu faça que mude as coisas que já são o que são. Mas se tem alguma mudança que eu possa fazer, essa mudança começa em mim. Começa naqueles sonhos que eu ando carregando por muito tempo. Como dizem, ano novo, vida nova. E dessa vez essa frase não vai ser mais um clichê. Eu vou seguir em frente e começar minhas conquistas aos poucos e com determinação, porque eu sei que quando a gente luta pelas vontades consegue ir longe. E é pra lá que eu quero ir. Meu coração pode ser pequeno e estar preso no meu peito, mas é ao mundo que ele pertence e é pro mundo que ele quer ir. Se aventurar enquanto ainda dá tempo, enquanto as vontades não se tornam sonhos que ficaram só na memória por acomodação.

  Eu quero mais, eu sempre quis mais, e não acho que deva desistir de andar por aí. Me admiro por isso, mesmo com o medo e com as cicatrizes incuráveis eu ainda quero continuar. Se a gente desistisse fácil jamais saberíamos andar de bicicleta. Os tombos são necessários até que se aprenda como guiar. E é exatamente isso que eu vou fazer agora, aprender a como me guiar, a guiar minha vida. Viver mais por mim. Depois de todas as dores que esse 2010 me trouxe, resolvi me dar a chance, depois de muito tempo, de só concentrar as coisas boas e dar um tempo à mim mesma. Partir pras reflexões menos confusas, menos atreladas e que me deixem em perfeita paz pra curtir o que ainda está por vir. Cansei de ficar me afundando em recomeços dolorosos, na minha depressão que nunca aliviaria a dor que jamais sairá do meu peito. O mais engraçado é que, de certa forma, acho que cheguei a me apegar à todo esse clima pesado que rondou minha alma, que agora, com tudo mais leve, eu estou me achando esquisita e não cabendo em mim. Parece que tá tudo misturado mas minha mente está tão cansada que desistiu de organizar e quer esperar algo novo acontecer.

  Tudo que eu esperei esse ano foi que alguém que me dissesse: “Eu estou aqui, te apoio em qualquer decisão que tome. Irei em qualquer lugar que seus pés pisem, te amarei independente de qualquer coisa que faças”, com um sorriso nos lábios e nenhuma intenção guardada nos bolsos. Eu demorei, mas vi que esse alguém já existe.

  Se quiserem saber quem é esse alguém, eu digo. Eu.

PS: E quanto a tudo isso que passou, eu tenho só uma frase: “obrigada, vida.” Porque se eu sou o que sou hoje, foi graças a essas minhas crises loucas. E pra quem acha que é dramatização demais, que as coisas não foram tão pesadas assim: “você que pensa, meu bem. Queria te ver no meu lugar. Esse texto inteiro não exprime nem metade do tormento que foi.” E se me perguntarem: “valeu à pena?” Eu responderei: “Sim. Mas não desejo isso a ninguém.”

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