A Perfect Tourniquet

  Lembro-me como se fosse ontem do homem pacato que encontrei pela vida, me observando de longe e atentamente. Me incomodava, a princípio, mas depois ignorei. Em resposta ao meu aparente desprezo, ele surgiu ao meu lado e se dispôs, a qualquer custo, a arrancar um sorriso de meus lábios. Sem me conhecer ele já soube como ganhar minha atenção. E foi assim, depois de horas e mais horas, que eu descobri que era ele quem eu queria, acima de tudo que estava ao meu redor, naquele momento.

  Tão meu e mesmo assim não pertencente a coisa alguma.

  Passaram-se meses, e lá estávamos nós, jogados num colchão, num velho quarto. Nos deparando com a pequena vida criada ali. Desvendando os mistérios um do outro. Tanto do corpo quanto da mente. Decorei cada canto da nossa nova pequena vida. Ainda não entendi o porquê exato dessa atitude. Talvez pra poder lembrar quando tudo acabasse, ou pra saber te guiar, se um dia precisasse.

  Enquanto o analisava pela centésima vez, ele me fitava, tentando compreender por onde eu estaria, já que eu sempre vivia perdida em meus pensamentos. E isso o incomodava. Mesmo sem olhar diretamente para seu rosto, eu podia ver a testa enrugada e a cara de incômodo. Inevitavelmente, sorri.

  – Do que é que você ri? – perguntou-me, ainda incomodado.  

  – De nós, jogados em perfeita sintonia.

  – Por que é que você tem sempre que se perder no mundo que existe aí dentro da sua mente toda vez que estamos assim? – essa sim, era a pergunta que ele queria ter feito, desde o princípio.

  – Não sei, talvez não exista um só momento que eu não esteja perdida nele. Mas quando estamos assim, é mais fácil. Eu só tenho uma coisa no que me concentrar, o mundo que criamos aqui. Mas ao mesmo tempo fica aquele ar de utopia em meio à atmosfera da realidade. Eu sei que um dia tudo vai acabar. Mas e quando acabar.. Que outro mundo eu terei pra viver?

  – Você é doidinha mesmo. – veio aproximando o rosto do meu – Quando acabar, nós inventaremos outro, e mais outro, e mais tantos quantos forem preciso. Não importa nem em quantas vidas. Eu acredito que em todas que eu tive, nós sempre nos encontramos. Não vejo motivo pra isso acabar.

  – Não é preciso motivos. Um dia tudo acaba, você sabe…

  – Se acabar – pegou meu rosto em suas mãos e me olhou fixamente – Não vejo motivo para continuarmos existindo. – logo depois que disse isso, me beijou. E mesmo entretida em seu beijo, eu ainda absorvia a intensidade daquelas palavras.

  Ficamos em silêncio durante alguns minutos.

  – Você é feliz? – fitei-o seriamente.

  – Por que você sempre me pergunta?

  – Por que você nunca me responde?

  – Não vejo porquê. – disse isso desviando o olhar do meu. Meio atormentado.

  – Porque por mais que seja eu que sempre me perca nos pensamentos, é a sua mente que nunca está aqui.

  Ele levantou irritado. E agora, já não falava mais, gritava. 

  – Você realmente consegue estragar com tudo! Eu sou feliz, mas por mais que eu te diga, parece que nunca é suficiente.

  – Seria suficiente se você ao menos me respondesse. Mas toda vez que te pergunto você foge. Não vejo porquê. Ninguém vive num poço de felicidade.

  – Você tem razão, ninguém vive.

  Pegou suas coisas e saiu batendo a porta. Não era a primeira vez que isso acontecia. E era sempre assim. Explosivo, demasiado, dramático.

  O eco da porta ainda martelava em meus ouvidos enquanto eu deslizava pela parede até encontrar o chão. As lágrimas foram inevitáveis. Cheias de ódio, de rancor, ira, vingança….. E de amor. Era como se ele soubesse como me destruir. Fazer uma implosão no meu corpo.

  Eu fiquei lá. Jogada no chão daquele quarto cuja única iluminação vinha de uma pequena janela. Estava unida à dor. Ao excesso. Passaram-se horas sem que eu sequer me movesse.

  Não escutei seus passos mas sabia que ele estava ali. Chegava como os raios solares deslizantes sobre minha pele, me absorvendo em seu calor. Me olhou nos olhos e disse: “Eu te amo, sua idiota”. E me fez sorrir. Ele sabia, sempre, como me reconstruir. Pegou toda minha fragilidade e colocou em seu peito. Entrelaçou os dedos nos fios de meus cabelos e juntou seus lábios aos meus, me consumindo. Depois me prendeu ao colchão e soube tracejar cada linha do meu corpo. E após tudo isso, prendeu meu corpo ao lado do seu e me disse aos ouvidos: “nunca mais saia daqui”.

Nós éramos um poço.

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