Slow Dancing in a Burning Room

  Tenho impressão de já tê-la visto por aí, aquele mesmo ar de certeza, de uma guerreira que luta sem exércitos. O mesmo olhar, tão concentrado que parece que tudo ao seu redor passa despercebido. Mas ao mesmo tempo ela observa tudo, e se perde nesse todo. Os mesmos passos acelerados, mas sempre caminhando no sentido certo.

  Ela estava mais uma vez ali, um pouco mais a minha frente, parada, observando enquanto tomava um drink. Já era tarde. Madrugada. Ela estava linda, mesmo sem nenhum detalhe especial, nenhuma roupa mais ajeitada, nenhuma maquiagem. Mordia os lábios, uma vez ou outra. Devia ser uma mania desapercebida. Passei por ela e pude sentir o perfume bobo, perdido, que não chamava atenção, a não ser dos olfatos mais apurados e críticos.

  Todo aquele hall e aquele bar, ambos quase vazios. Era tarde, não poderia ser diferente.

  Decidi me aproximar, mas antes passei longos minutos escolhendo a frase certa a dizer. Ela não merecia palavras jogadas ao vento, ela merecia algo saído da verdade, simples, desajeitado. Bobo mas inteligente.

  Me levantei, não havia decidido mas tinha que ir. Foi quando a correria começou, algo fora do normal para aquele horário. Uma movimentação estranha, uma ruga na testa dos funcionários, e desespero no olhar dos que corriam sem direção. Eu e ela observamos tudo como se as cenas passassem em câmera lenta por nossos olhos. Foi um reflexo-não-reflexo. Parados, atônitos e inconscientes. Ela se levantou de repente, e minha primeira reação foi dar um passo em sua direção. Meu coração disparou só com a idéia de que ela fosse embora e eu a perdesse na confusão novamente. Ela se aproximou da porta de vidro que nos separava do hall. Não pensei. Andei até chegar ao seu lado, não observei nada além dela.

  Quando cheguei ao seu lado, ela me olhou com os pequenos olhos confusos e tristes. Eu pude ver o fogo no fundo de sua pupila. Então entendi. Havia um incêndio e o fogo já tinha se alastrado por todo o hotel, bastava alguns minutos pra que ele logo chegasse ao bar. Todos corriam desesperados, enquanto nos olhávamos. Uma música lenta começou a tocar no fundo. Melodia calma, voz calma, palavras calmas. O fogo já estava ao nosso redor, mas nada disso parecia importar.

  Ela andou até o centro do bar, onde haviam menos chamas. Fui até ela, fiquei parado logo atrás, sentido o cheiro dos seus cabelos. Ela se virou, com uma lágrima caindo e um sorriso no rosto.

  – Por que eu demorei tanto pra te encontrar?

  Sorri. Lhe estendi minha mão, convidando-a pra uma dança. Ela sorriu e entrelaçou seus dedos aos meus. Passei minha mão por sua cintura, e ela repousou a sua em meu ombro. E assim ficamos, dançando lentamente em um lugar em chamas. Encostei meus lábios em seus ouvidos.

  – Desculpe ter demorado tanto.

  – Tudo bem, finalmente nos encontramos. Foi bom ter esperado. Foi bom ter te encontrado.

  Encostei meus lábios nos seus e entendi que havia mais de um incêndio ali.

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