Happily Ever After?

     Sábado, seis e meia da tarde, cemitério. Foi nessa data hora e local que ele a viu pela primeira vez. Seus cabelos enrolados na altura dos ombros caiam quase que perfeitamente sobre a grama, seus olhos fitavam freneticamente o céu acinzentado de Curitiba. Seu corpo delicadamente esculpido e disposto sobre a grama se curvava num “S” defeituoso por causa de suas roupas um pouco largas demais e, sarcasticamente, floridas e coloridas demais. Tudo junto se encaixava e transformava na criatura mais linda que ele já tinha visto.

     Seu recentemente partido coração tentou lutar contra a luxúria retida na cabeça inferior do menino, porém foi vencido facilmente quando a camiseta da menina se ergueu levemente deixando a mostra parte de sua pele bronzeada. Mesmo com o frio na espinha por causa do ambiente inóspito seus pés o guiaram para o corpo estendido no chão e, ao chegar lá foi surpreendido pela beleza exorbitante da menina. Pegou no meio do caminho, apenas para seguir o regulamento social, uma flor. Contou antes quantas pétalas tinha, terminando com um número impar. Ele sabia como cortejá-la de pelo menos doze maneiras diferentes. Optou por bancar o melhor ombro amigo possível. Isso atrasaria um pouco seu real interesse, porém na hora h tudo ficaria melhor com a intimidade que os dois teriam. Não se importava com o tempo que isso levaria, aqueles peitos certamente valiam a pena esperar. Segundos antes de chegar ate a menina pensou no nome que usaria dessa vez, ele já estava cheio de perseguidoras frenéticas na internet. Bruno estava bom, acreditável e fácil de lembrar. Quando finalmente terminou de cruzar o gramado se sentou ao lado dela.

 “Vi que estava aqui sozinha e eu lá sozinho também, então trouxe essa flor para você.”- isso era muito mais fácil quando ele não pensava nelas nuas ao mesmo tempo em que conversava com as mesmas.

“Ah, obrigada mas eu tenho namorado, não sei se você percebeu?” – respondeu a menina rusticamente.

“Bom, acho que você não me entendeu eu só queria conversar e você parecia triste então vim aqui lhe fazer companhia.”

     Ele a entregou a rosa e ela, meio ressabiada aceitou. Não preciso dizer que em meia hora os olhos azuis do menino e sua boca delineada já tinham distraído a menina o bastante para ela se esquecer do namorado. Bruno fazia tudo certo, escutava, ria, e até deixou os olhos lacrimejarem quando ela falou do avo refém falecido. Ele era um profissional na área de enganar garotas desiludidas. Perguntou o nome da menina. Paolla. Lembrou-se varias vezes de não trocar o nome dela por outro, senão o tempo todo dele ouvindo aquela porcaria que ela chamava de sentimentos não teria resultado nenhum para o seu lado. Bom, como o planejado, nada rolou naquela tarde, mas paradoxalmente tudo rolou naquela tarde. Paolla estava se apaixonando sim, e Bruno ansiava pelo seu corpo, nada mais. Semanas se passaram, meses, Bruno viu Paolla passar pela separação dos pais, pela própria separação e se jogar nos braços dele. Paolla pensava nele antes de dormir. Bruno pensava nela tanto quanto pensava na Amanda, Renata e na Priscila, e sempre, e claro, maliciosamente. Eu nunca disse que essa era uma historia de amor, de uma transformação milagrosa de um menino sem volta. Não essa historia não tem um final feliz. Enfim Bruno já podia ate sentir o cheiro do perfume de Paolla roçando no seu pescoço, quando o destino deu uma enorme guinada na direção contrária.

     Você tem que entender que Bruno sabia mentir extraordinariamente, porém não se planejava muito bem. O que aconteceu foi o seguinte: numa sexta feira Paolla decidiu fazer uma surpresa para Bruno. Sabendo da sua ânsia pelo seu corpo, ela correu para o apartamento dele, esperando inocentemente encontrá-lo só e seduzi-lo até se entregar por completo. Mas esses não eram os planos dele. Nesse momento ele estava se deixando seduzir por um outro par de peitos que ele nem conseguia lembrar o nome. Paolla mal tinha terminado de entrar na casa quando viu as pernas da outra entrelaçadas por sobro o corpo de Bruno. As palavras exatas que eles usaram não me vêm à cabeça, mas eu posso te assegurar que pelo menos algumas mães foram xingadas naquele momento. Porém uma frase grudou na minha cabeça desde então, ela foi pronunciada por Bruno.

 “O que você queria? Eu nunca disse que te amava nem que estava me apaixonando por você. Esse é o problema com vocês mulheres. Vocês põem uma coisa na cabeça e esquecem que muitas vezes os outros não pensam como vocês. E eu não tinha todo o tempo do mundo para gastar numa virgenzinha, ok!”

    Paolla que estava hiperativa se acalmou e simplesmente deu meia volta lutando contra os próprios pés que queriam mesmo era sair correndo daquele lugar, e foi o que fez quando a porta do elevador abriu. Nesse momento Bruno que não dava mais ouvidos aos resmungos da tal menina que estava com ele ouviu nos fundos uma freada e um grito, pensou um pouco e xingou ate não poder mais o destino. Relutante foi ate a janela e ao botar a cabeça para fora viu o que temia ver: Seus cabelos enrolados na altura dos ombros caiam quase que perfeitamente sobre o asfalto, seus olhos fitavam freneticamente o céu acinzentado de Curitiba. Seu corpo delicadamente esculpido se curvava num “S” defeituoso por causa de suas roupas um pouco largas demais e, sarcasticamente, floridas e coloridas demais. Tudo junto se encaixava e transformava na criatura mais linda que ele já tinha visto. Porém abaixo de tudo isso havia uma poça vermelha de sangue. Ironicamente nesse momento ele sentiu tudo o amor que ela sentia por ele, um pouco tarde demais, porém.

    Sábado, seis e meia da tarde, cemitério. Foi nessa data hora e local que ele a viu pela ultima vez, e pasmem, não foi no caixão. Ele a viu ali do seu lado sussurrando e lhe entregando uma rosa: “Eu te amo, seu babaca miserável”.

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