Morfina

Eu queria um dia saber como é realmente pertencer a algo, como é saber que seu lugar existe, em algum ou em alguém andando por aí. Aquele alguém que guarda o mesmo brilho que permanece nos seus olhos, esperando pra iluminar os caminhos da sua mente.

Queria encontrar uma combinação que fosse destrutiva, que me arruinasse inteiramente por dentro sem que eu sequer dê a mínima pra isso. Queria alguém que me fizesse esquecer de tudo e me levasse pra qualquer lugar. Alguém que me incentivasse a topar qualquer coisa, sem medo. Alguém que fizesse tudo certo, do jeito errado. Jogasse na minha cara todas as intenções da forma mais clara, sem ter receio quanto às minhas reações. Que soubesse aproveitar o que há de melhor em cada pessoa que atravessa sua vida, que tivesse um ímã natural que me deixasse presa sem ter a necessidade de sair. Alguém que trocasse os campos magnéticos comigo, sempre reciprocamente. Que me mostrasse que a vida pode ir muito além dos sonhos, das vontades e das preocupações. Ou melhor, não além, mas que ela pode estar ali, na sua frente, sem sequer exigir um mínimo esforço para alcançá-la. Alguém que não divida tudo comigo, mas sim construa. Por mais que tudo isso pudesse acabar cinco minutos depois de toda explosão. Ou que durasse um mínimo olhar atravessado de cinco segundos.

Alguém que eu acidentalmente encostasse minhas mãos e não sentisse um choque, mas sim vontade de entrelaçar meus dedos, de desenhar formas sem sentido apenas por entretenimento. Alguém que me olhasse nos olhos e fizesse uma lista de todos os meus piores defeitos, que gritasse comigo e depois me segurasse pelos braços dizendo que não saberia viver sem todos eles. Alguém que me fizesse querer estar viva, que fizesse meu sorriso sair espontaneamente sem que eu sequer percebesse que o carregava, alguém que fizesse minhas lágrimas se despejarem pelo chão, que me machucasse só pra saber como me reconstruir depois. Alguém que me mostrasse que o excessivo pode ser, sim, uma coisa boa. Alguém que lutasse por mim e fizesse eu lutar por ele. Me fizesse querer sempre mais, como alguém viciado em morfina. Que soubesse manter nossa relação em pleno equilíbrio. Apenas um confortando a necessidade do outro. Que soubesse me surpreender sem que eu precisasse dizer uma palavra. Que me manipulasse e fosse manipulado.

Alguém que mesmo que eu criasse, ainda não caberia tão perfeitamente em mim.

Alguém na dosagem certa.

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2 thoughts on “Morfina

  1. Paulo diz:

    Alguem assim não existe, e vc vai se cansar de procurar por “ele”…
    Mas gostei muito do seu texto, e das coisas q vc escreve! vc escreve muito bem! certeza será uma grande jornalista! fico orgulhoso! bjos garota

  2. Thays diz:

    ASHUAHSUHAUSHAUHSA, não é que eu procure alguém assim. Escrevo justamente porque sei que não existe, meus textos são pra externar um pouco das coisas utópicas que passam pela minha cabeça. Mas obrigada, mesmo!

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