Rescue Me

     É claro que aquilo não podia acabar bem, alias nada acabava bem ultimamente na minha vida. Olha só o Oscar, por exemplo, comprei aquele peixe porque ele estava sozinho naquele aquário gigante, me identifiquei com ele na hora, mas quando cheguei em casa e o coloquei  no minúsculo aquário que meu pai tinha me dado, antes de ter dado as costas para tudo o que ele conhecia nesse mundo, eu me senti mais próxima daquele bicho como nunca: nos éramos duas criaturas insignificantes demais para o mundo e gigantes demais para caber nas nossas jaulas que alguns insistem em chamar de casa. Mas a história não e sobre Oscar, claro que ele acabou morrendo dias depois, como praticamente toda minha vida esta agora.

      A pior das piores torturas e quando alguém te da um gostinho de uma vida melhor só para depois arrancá-lo de todo o seu sistema te arrastando de volta para a realidade e te afogando de uma vez por todas nas suas memórias que você na verdade nunca teve a intenção de reviver. Qualquer tipo de agressão física não chega nem perto da dor que esse tipo de tortura causa nos seres humanos, pelo menos nos sensíveis as emoções verdadeiras, por isso qualquer tipo de suicídio esta fora de questão no meu pequeno caso que, se eu parar de me devanear, contarei a vocês. Já esta subentendido que feliz não será, a não ser pelas próximas poucas linhas, onde estará representado o principio raso de meu sonho que ao final das contas virou pesadelo. Houve uma época, mesmo que bem remota a minha memória, que eu não era fechada ao mundo como eu sou agora, eu ainda acreditava nas pessoas e no tão manjado “amanha melhor”. Não julgo esse meu passado pois nele eu ainda não conhecia o lado do amor que ninguém escreve sobre, o lado do amor que não serve para historias épicas. Nessa época meu coração era bem alimentado pelas palavras, gestos, carinhos e beijos ardentes que você me dava. Eu não precisava de mais nada para viver, bastava o seu suporte, o seu sustento, o seu olhar para eu me renovar e ficar pronta para tudo o que pudesse vir a me aparecer.

     Pelo menos era o que minha vulnerável mente apaixonada pensava.

     Meu corpo ansiava pelo seu toque e minha alma o beijava insanamente toda vez que ele estava ao meu redor. Não sou louca de negar o quanto eu era feliz, o quanto eu estava satisfeita com a minha vidinha pacatamente perfeita. Mas claro que a data de validade dessa pacificidade estava chegando, mesmo que a inocência de mim mesma cresse que eu seria privada dessa fatal consequência. Como numa antítese real minha vida saiu desse clarão para entrar numa profunda negritude que permanece ate hoje, clareando aos poucos numa escala em cinza muito pequena. Se eu soubesse o quanto ele se machucaria nunca o deixaria se envolver assim com aqueles “amigos”. Por fim, o vi se entregar as drogas e mesmo que eu tentasse, e eu me desgastei tentando, não conseguia resgatá-lo de sua profunda agonia e mártir. Lembro de seus olhos profundos gritando por socorro me fitando profundamente e arduamente, e eu cada vez mais me sentindo impotente e solitária. Vi aquele homem se destruir sozinho e jogar um futuro brilhante pela janela. Vi aquele homem definhar e amolecer. Vi aquele homem morrer. Eu tinha que achar um porque daquilo ter acontecido, uma razão pela qual eu me encontrava naquela penumbra. Cheguei a atribuir Deus como o grande vilão, e, logo em seguida, me arrependi e me seguirei nele próprio com todas as minhas forças pois era tudo o que eu tinha, tudo o que era plausível para mim agora. Acordava a noite jurando que sentia seu hálito no meu pescoço, sua barba roçando em minhas bochechas, mas nunca o encontrava. Estava enfim solitária. Após sua morte minhas expectativas baixaram, meu corpo murchou, minha vida cessou. Agora eu espero ansiosa por um S.O.S que só ele pode me dar.

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