Relato de um bom coração

Disse adeus sem ao menos dizer ‘adeus’. Virei as costas e fui. Deixei tudo para trás. A menina inocente que costumava ser. Feliz na sua ingenuidade, na sua verdade nada corrompida. Abri os olhos, vi, revi e não gostei. Mas já era tarde demais pra tentar fechá-los. Já entendi como essa merda de sociedade funciona. Como essa merda chamada ‘ser-humano’ é. Não gostei, mas continuo sendo um.

Eu não sei que necessidade sobre-humana é essa que todo mundo tem de querer pré-julgar tudo. Querer meter o bedelho, dar opinião, querer sempre falar, falar, falar e nunca dizer nada. Elas nunca dizem nada, não importa o quanto falem. Os conselhos e opiniões válidos são fundamentados em experiências, e não no ‘achismo’. Eu cansei de ter meus tímpanos quase estourados por conta disso. Querer compartilhar e ter medo de fazê-lo porque sabe que vai ouvir muitas coisas e elas quase sempre vão ser erradas. As pessoas não te compreendem – justamente pela falta de vivência – mas mesmo assim adoram soltar um comentário. Não foi à toa que Deus nos deu dois ouvidos e uma boca, né?

Tive que me calar. Por mais que uma coisinha ou outra sempre escape, eu preferi o silêncio. É bem aquilo que dizem: “Se soubéssemos quantas e quantas vezes as nossas palavras são mal interpretadas, haveria muito mais silêncio nesse mundo”. Pois bem, cheguei ao ponto extremo de ser mal interpretada. Já fui xingada por outro alguém quando eu estava falando sozinha, inclusive. Chega a ser tão trágico que a coisa vira cômica. Enfim, cansei de ter que me explicar a todo o momento, de arrumar palavras, pensar e pensar muito antes de falar. Ter que me ‘editar’, por assim dizer. Se fossem só minhas palavras que fossem julgadas, acho que não seria tão grave assim, mas quando se trata dos seus conceitos, seus princípios, vontades, sentimentos… Aí realmente o silêncio é a única saída. Uma saída bem dolorosa, mas necessária pelo que vejo.

Não tenho me sentido eu mesma, nem dentro de casa. Estou me perdendo aos poucos. Fico me controlando tanto que perdi o controle da minha personalidade. Acho que sempre me reencontro por nunca ter perdido a segurança. A auto-preservação. Mas já me tem tomada por inteira a vontade de fugir. Esses dias, quando voltei a mim, estava sentada dentro do carro, com a chave na mão, fitando um ponto qualquer da parede. Era inútil. Eu me senti inútil.

Não sei mentir. Sei que peco muitas vezes, mas nunca deixei de ser verdadeira comigo mesma e, conseqüentemente, com os outros. Sempre fiz o que quis. Não sei se foi certo ou errado, mas sempre foi o que pude fazer. Sempre tive uma segurança, sabe? Encontrei motivos, dei razão às minhas decisões. E elas têm fundamento, por mais que, grande parte delas, as pessoas à minha volta nunca tenham entendido.

Odeio essa coisa de ter que pretender todos os dias que tá tudo bem. Fingir que não vejo, não escuto, que não ligo. Viver de falsidade nunca combinou comigo, só que agora parece que é o que mais faço da vida. Não agüento ter que explicar que tudo tá uma bosta por causa disso, disso e daquilo. As pessoas não têm culpa. Eu que nasci pra sentir verdade num mundo fadado à mentira.

Distribuir sorrisos falsos nunca foi o problema. A falta dos verdadeiros é que é. É horrível olhar pro lado e perceber que você está num lugar lotado de pessoas que não combinam com você, que não te fazem se sentir bem, exceto por alguns minutos em que você até se sente ‘feliz’. Com aspas, sim. Porque não é aquela felicidade verdadeira que enche o espírito e o peito de coisas boas. Que fazem você esquecer o mundo. Chamo-a de pseudo-felicidade. Uma nova ‘espécie’ de felicidade. Uma pequena partícula dela, que apesar de não ser ela inteira, ainda a é.

Ando escrevendo mais do que antes. Essa coisa de escrever sempre foi o amortecedor de tudo. É nas palavras que eu me encontro, ou tento me encontrar. Porque até elas andam me fugindo ultimamente. São tantas coisas passando pela cabeça que meus dedos, coitados, não têm fôlego pra acompanhar o ritmo. Por isso entro em curtos tempos de abstinência – que na verdade mais parecem uma eternidade, pra mim. Não tenho feito outra coisa senão escrever. Até quando eu acho que não estou escrevendo, eu estou. É uma máquina que não pára. Já está tão dentro de mim. Essa coisa de criar um mundo paralelo torna-se viciante quando você vive no meio de tudo aquilo em que não se encaixa.

Entro em contradição. Sonho com um mundo melhor sabendo que ele nunca irá existir. Tento criar um conforto sem poder vivê-lo. Eu não posso dizer o que realmente é, mas só como me faz sentir. É como uma faca que vai destroçando tudo, internamente. Um esquartejamento constante e invisível. Uma sensação de privação. Só tem uma coisa que eu desejo mais do que tudo nessa vida: liberdade – o que ainda não conquistei por inteiro. Estou na luta, e isso me tem feito magoar muitas pessoas. Todos podem dizer que almejam isso também, mas nunca desejaram em sua plenitude. Eu, sim.

Estou sendo condenada por olhares por ter uma opinião diferente. Por não sentir a necessidade de romantizar tudo. Vejo todos fazendo planos conjuntos e eu feliz na minha solidão. Não é que eu condene o amor, que não queira senti-lo. Só acho que, pra mim, existem coisas que quero fazer antes disso. E, sinceramente, sempre vi as coisas como elas são. Não sinto necessidade de mentir achando que isso vai amenizar alguma coisa. A verdade e a realidade doem, mas eu sempre as preferi. Sem falar que as pessoas fazem questão de perder o encanto que podem ter com atitudes impensáveis.

Fui especialmente encomendada pra sentir o desmedido. Pra sentir e sentir de verdade. Uma coisa sem explicação, que me tome sem me roubar. Eu preciso sentir aquilo que você sabe que é mas que não encontra definição. Aquele bem estar que te toma num só olhar. Uma conversa que te faça bem. Posso contar nos dedos de uma só mão quantas pessoas conseguem fazer isso, e sobram dedos. Não acho que seja difícil entender ou fazer isso, mas parece que quanto mais simples, menos entendem. E menos conseguem.

A simplicidade requer verdade, e verdade, infelizmente, como tantas outras coisas (percepção, paciência, semancol…), não se vende em cápsulas por aí.

Mas tudo bem, eu já vi como as coisas são. Vi, revi e não gostei. Não gostei mais continuo vivendo. Interesses: tudo se resume nisso. Ninguém mais sabe ser o que realmente é. Somos um bando de animais que tratam uns aos outros pensando em interesses. Não importa como, engolimos qualquer coisa ou qualquer um pensando só no próprio bem. Seja no querer ou no impor. Precisamos ouvir mais, reparar mais. Ter uma dupla dose diária de semancol e percepção. Porque não sei se as pessoas são tão burras a ponto de não saber isso, ou não ligam e fingem.

Bom, o que me resta é sempre dar adeus. É querer muito tentar mudar as pessoas, se ainda somos primitivos. Ainda bem que a gente tem uma coisinha chamada esperança. E ela, ela é sempre a última que morre.

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