Mr. Brightside

Nunca quis o amor como prioridade de vida, como muitas mulheres querem desde cedo. É claro que eu já sonhei, também, com ele. E em todos os sonhos ele era maior do que eu, me deixava incontrolável. Meus sonhos sempre foram tão reais que eu conseguia sentir essa inquietação, essa coisa desmedida, mesmo sem sentir de fato, na realidade. Talvez por isso eu tenha tentado sentir isso em todas as relações que tive, sem obter sucesso. Imaginar e escrever sempre foram minhas válvulas de escape.

Nessa época eu fui em busca do que sempre quis fazer: viajar. Conheci lugares, me encantei, tive algumas paixões… Mas nada de concreto, entende? Aquilo que dá razão a tudo.

Foi numa ocasião qualquer que acabei trocando meia dúzia de palavras – e algumas outras coisas, confesso – com um completo estranho. Não seria a primeira vez. E, à princípio, foi como qualquer outra ocasião, sem diferença alguma. Foi quando, meses depois, as lembranças me trouxeram de novo uma análise mais detalhada daquele momento, clareando minha idéias. Havia agora uma pequena fagulha dentro de mim que aquele homem tinha despertado, inocentemente. Sem perceber. Não sei se a atitude mudou o fato, ou a famosa química de que tanto falam. Talvez os dois, porque enquanto um alimentara meus ímpetos, outro mexera com minha mente. Conseguiu derrubar a razão, pois até ela agora parecia contente em saber que, pela primeira vez, concordava com o resto do meu corpo.

Nos vimos mais algumas vezes, sempre em ocasiões inóspitas. Deixei de lhe responder coisas, e corresponder, por ficar entretida na minha observação. Queria entender o que fazia alguém conseguir prender minha atenção por tanto tempo. Talvez fosse o modo como ele gesticulava, ou como ele sempre sorria, assim, naturalmente. Tudo era tranqüilo em sua feição, e essa tranqüilidade se espalhava a sua volta. Fazia com que qualquer um se sentisse bem. Invejei-o.

Durante as seguintes semanas sentei na escrivaninha, com papel e caneta na mão, pronta para minha rotina de escritora. Mas fui surpreendida ao me pegar devaneando na memória do seu sorriso e, quando olhei pro papel, ele continuava em branco. Era surpreendente como a felicidade me dava ‘olá’ e a escrita ‘adeus’.

Meses se passaram. Não demorei muito pra retornar a ser a máquina de escrever de antes. Sempre que falta alguma coisa a gente tenta nutrir substituindo com outra. E as palavras, ah, as palavras! Elas sempre souberam ser a bengala que firmava meus passos.

Nos encontramos, por fim. Ambos sabíamos que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Conversamos durante horas. Ele estava certo, a gente realmente se dava bem. Não tinha porque tentar relutar. Nos despedimos com um reencontro certo e marcado no calendário. Sabe aquele frio na barriga que a gente costuma sentir quando chega o momento? Senti a falta disso, porque, no lugar desse arrepio, estava o nervosismo. Fitei o relógio numa agonia, tentando acelerar os ponteiros.

Ele chegou, sorridente, como sempre. Lindo, tão lindo. Me roubou um beijo sem precisar pedir. Me embriagou com seu cheiro. Como pode alguém despertar tanta coisa em mim? Mais tarde estávamos numa pista de dança já conhecida, roubando beijos e provocações. Cada vez que suas mãos me tocavam, e ele me aproximava ainda mais do seu corpo, todo um tremor me percorria. Começamos a nos ‘freqüentar’ mais e numa dessas noites estava na frente dele, trocando olhares silenciosos cheios de desejos. Era visível pra qualquer espectador o que acontecia. Para os envolvidos, então, era gritante. Desejo. Ele me tomou em seus braços mais feroz, apaixonante, mais desejável. O tremor alcançou sua maior escala, e nesse caos de paixão nós consumamos a conseqüência óbvia. Ele sabia como percorrer cada traço do meu corpo, como se encaixar, me prender e satisfazer. Ofegantes, sorrimos entre beijos. Quem, um dia, podia dizer que tudo acabaria assim?

O mais importante de tudo é que era bom. Não era aquela coisa que consumia. Era algo simples, um bem-estar. Estávamos juntos, não importando o que isso podia implicar. Nos dávamos bem, e isso era suficiente.

Fui reduzindo gradativamente meus textos a frases. Entendi que eu realmente estava feliz, dessa vez. Realizada. E já não eram mais as palavras as donas disso, era… O barulho da porta interrompeu meus pensamentos. Ele surgiu pouco segundos depois, analisando meu sorriso. Senti que aquele sorriso eu nunca havia lhe dado. Era caloroso, verdadeiro, intenso. Era bom. Estranhando, disse:

– O que te faz feliz?

A resposta veio como um estalo.

– …Você!

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