Nonsense

Não sei dizer quanto tempo fiquei ali. Era bom finalmente poder estar só, sentindo os fios de cabelo dançarem ao ritmo do vento, imaginar-se no silêncio, mesmo com todos os ruídos afora.

Enquanto meu café esfriava, minha mente estava à todo vapor. Comecei a olhar a rua lá de cima, reparar em todo aquele imenso mundo que se tornava pequeno ao lembrar que era apenas mais uma parte de uma cidade entre bilhões de outras pelo mundo – se compararmos ao universo, equivalemos a um grão de areia. Pude reparar em casais brigando e outros de mãos dadas sorrindo, passando um ao lado do outro. Vi crianças pedindo esmola nos sinaleiros e outras brincando na calçada. Vi uma pessoa dentro do seu carro, feliz e confortável, e gente mal-humorada e espremida dentro de um ônibus. Vi famílias sorridentes e unidas em áreas não tão privilegiadas da cidade e outras separadas e brigando em lares dignos de filmes com alto orçamento. Comecei a imaginar o que poderia estar passando nas mentes dos tantos pontinhos pretos que eu via. Eram tantas vidas, tantos acontecimentos. E pra quê? Que sentido havia nisso tudo? Cada um vivendo individualmente numa sociedade que, de certa forma, acolhia tantos indivíduos perfeitamente iguais em suas diferenças.

São tantos sonhos reunidos pra vidas tão curtas. A gente se questiona se deveríamos aproveitar a vida fazendo o que sempre quisemos fazer ou fazer aquilo que supostamente é o mais certo a se fazer. E no fim, tudo acaba do mesmo jeito. A gente morre e ponto final. Vem outras vidas, vivem, sonham e morrem. É um ciclo sem sentido. Nós não temos sentido. Vivemos num formigueiro em que cada um exerce a função que acha que devia ou que se encaixa pra engrenar toda essa roda. Os dias passam iguais, tortuosos. A vida passa, a gente aprende e morre. E pronto. Acaba nisso.

Bebi o resto do café, já estava frio e isso me fez fazer cara feia após ter engolido. O vento assobiou. Alguém buzinou lá embaixo. O céu estava laranja – e lindo! Comecei a sentir uma certa agonia, eu tentava dar uma razão pra tudo mas a verdade é que é isso mesmo: tudo tem um fim, nada tem sentido. A gente vive achando que tá fazendo a coisa certa sem se perguntar se deve ser aquilo mesmo. Outras vezes fazemos o que queremos sem nos perguntar se realmente queremos. E quem foi que disse que o modo como vivemos é o jeito certo?

Nem o que eu pensava fazia sentido mais. Se a vida é sem sentido, que sentido faz eu tentar encontrar razão pras coisas? Eu já não sabia mais o que estava fazendo. Deveria estar ficando louca. Mas, sei lá, acho que todo mundo já deve ter parado pra pensar que é só mais um num bolo de gente sem sentindo, vivendo uma vida sem sentido pra outra coisa mais sem sentido ainda. A diferença é que a maioria das pessoas, depois que pensam, gostam de ignorar o fato de que pensaram e decidem aceitar que “deve ser assim mesmo”. E elas devem ser felizes por terem feito essa aceitação. Arranjam explicações inexplicáveis para o inexplicável, aceitam, conformam-se e vivem. E, talvez, deva ter algum sentido nessa coisa sem sentido.

Eu só não consigo aceitar e vivo inconformada por não achar uma boa causa, algo explicável. Quem sabe seja esse o motivo de eu estar quase sempre com dor de cabeça, preferir o silêncio e devanear. Quando sinto que a loucura está a ponto de vir, eu me finjo de conformada, continuo fazendo planos, sonhando, vivendo. Assim como todos fazem. Poderia ganhar um prêmio por ser tão boa atriz, já que ninguém percebe minha atuação.

Mas, quer saber, se nada faz sentido, de que adianta eu tentar fazer com que alguma coisa faça? Eu sei que minha teimosia não vai largar mão de continuar arranjando motivos, mas talvez até essa minha mania de tentar dar razão às coisas sem sentido seja apenas mais uma delas. E, como diria Caio, “de repente você começa a ponderar se não será assim mesmo o jeito das coisas, o jeito “certo” delas, por mais que pareça errado”. Ou sem sentido.

 

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