Chiar-ao-escuro

Não importa o quanto eu grite. Qualquer esforço que eu faça jamais será suficiente para eu ser ouvida. Estou clamando por atenção em meu olhar, minha garganta está seca de tanto esforço. E isso dói. Dói justamente por saber que uma coisa tão simples não consegue ser reparada. Dói saber que já quis despir pra muitos os fardos que sou obrigada a carregar, afim de que enxergassem aquela que gritava desesperadamente dentro de mim, e estes desistiram no momento em que pendurava o casaco.

Os poucos que uniram seus dedos entre os meus nunca realmente me deram a mão. Os que caminharam até aqui comigo nunca souberam enxergar. Gostam muito de dizer que eu sou ‘difícil de lidar’, quando na verdade talvez eu seja a pessoa mais simples do mundo. Mas simplicidade demais torna-se complicado, aparentemente.

Aqui dentro às vezes é sufocante, às vezes é bem acolhedor, por outras é renovador. Só que tudo isso não me impede de continuar gritando trancada no escuro. É como se eu pudesse me comparar à Lua. Acho que é exatamente isso, uma analogia muito bem apropriada: a Lua. Um satélite natural que, apesar de orbitar em torno da Terra, continua tendo seus próprios movimentos. Um astro de fonte secundária de luz, que precisa ser iluminada pelos raios do Sol para que ela brilhe à noite. E mesmo que seu brilho não venha de si, isso não a torna menos deslumbrante. Torna-a completamente bonita. Uma beleza digna de se perder o fôlego quando apreciada com carinho. Uma beleza que contém o seu lado negro, aquele que nunca enxergamos mas todos sabemos que existe. Assim como a Lua eu também tenho o my dark side. Assim como a Lua eu mantenho meus movimentos sem deixar de ser constantemente atraída.

Eu realmente não sei se quando eu digo que gostaria que alguém me visse despida eu falo a verdade. Talvez lá no fundo isso me cause medo por não saber lidar com a fragilidade com que eu estaria encarando a pessoa. Talvez lá no fundo nem eu saiba exatamente o porquê de meus gritos. Se eu estou realmente querendo ser resgatada. Eu vivo dizendo que as pessoas não me entendem sem eu mesma saber se eu me entendo. Não que isso sirva de desculpas para a cegueira alheia, eu só não sei mais com o que realmente estou lidando. Talvez eu só precise que um Sol me atinja com seus pequenos fragmentos de luz para que eu possa reencontrar o meu brilho.

A única coisa que eu sei é que eu continuo trancada, gritando, em pleno escuro. Todos podem achar que isso seja talvez mais um drama e eu receba outras reviradas de olho após compartilhar mais estas palavras. Qualquer um pode achar o que quiser e, mesmo assim, uma raríssima exceção apenas entenderá. Não se trata do acontecimento em si, não se trata das palavras. O que está em jogo mesmo são os sentimentos e como eles afetam a cada um de nós. Eu sei que há alguma coisa errada ou eu não estaria gritando. Tento achar razões que os possam amenizar, mas está cada vez mais difícil tentar organizar as coisas quando já se aprendeu a viver na confusão.

Tentei de todas as maneiras me convencer do contrário antes de admitir a mim mesma que eu sempre estive certa. Não importa quantas vozes façam meus tímpanos vibrarem se elas simplesmente proferem meia dúzia de letras das quais não fazem idéia do que significam. Não importa o quanto eu tente dolorosamente me despir forçadamente pra ver se finalmente enxergam alguma coisa. Não importa porque de nada adianta.

A verdade é que por mais que doa, eu me acostumei a gritar. Me acostumei tanto a ponto de gostar de sentir isso, porque eu sei que ali, perdendo minhas forças, eu estou lidando com a parte mais sincera de mim. Com a parte nua de qualquer vestígio de disfarce mal feito. Sou só mais uma menina assustada com as crueldades já esperadas. E talvez se um dia eu mostrá-la, eu perderei aquilo que faz eu ser quem eu sou. Eu não posso fugir. A dor é minha acompanhante, minha morfina. Não importa que ela esteja mascarada com decepção, ira, tristeza ou o que de mais ruim possa parecer aos olhos alheios. Esse é meu jeito de ‘ficar bem’ mesmo quando nada está bem.

Anúncios

4 thoughts on “Chiar-ao-escuro

  1. Igor diz:

    Agora eu faço parte dessas raríssimas exceções que entenderam fielmente o que você quis dizer. Seu texto tá completo, instrospectivo e belo. Me senti mesmo que indiretamente relatado nele, porque pelo que percebi você possui um alter ego assim como eu, que implora e grita por dentro justamente por ter a capacidade de sentir demais.

    • Thays Kloss diz:

      Fico feliz ao me deparar com gente que realmente entende e, ainda, deixa um comentário tão bonito quanto esse teu! Obrigada pelos elogios, estou lisonjeada e posso ver que você também se expressa lindamente. Gostei muito dessa tua frase: “justamente por ter a capacidade de sentir demais”, acho que esse é exatamente o ponto. Não poderia ter descrito melhor. 😉

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s