Inevitável

“Só sei que dentro de mim tem uma coisa pronta, esperando acontecer. E que não gosto quando a gente fica falando assim no que não foi, no que poderia ter sido. ” (adaptada – Caio Fernando Abreu)

Tentei remontar aquela noite durante muitas vezes antes de dormir, não descobri se era pra tentar inutilmente consertar alguma coisa ou reviver tudo aquilo. Honestamente, qualquer que fosse a intenção, não cumpri a missão como gostaria. Eu tinha desistido do meu coração no momento em que nos encontramos, e você parecia querer reivindicá-lo. Ignorei. Não tinha intensão de resgatá-lo.

Começava quase sempre assim: você sorrindo e olhando pra mim e eu acometida a minha introspecção, encarando-o com dúvida, mas ainda assim com um sorriso torto nos lábios. Éramos espectadores coadjuvantes trocando olhares. Eu, meio anestesiada, descompromissada com tudo por uma noite. Você presunçoso, com intenções inocentes e desconhecido. De início, achei ser mais uma daquelas pegadinhas que a vida gosta de aprontar só pra rir da nossa cara. Depois, já tomada em seus braços, fiquei lisonjeada com sua determinação.

Não tive como evitar os pensamentos que infestaram minha cabeça no momento que sua voz atravessou meus tímpanos. ‘Por que não?’, era só o que eu pensava. Já estava tão acostumada com superficialidades, estava certa de que quando você unisse seus lábios aos meus seria como mais um tropeço.

O meio iniciava-se parecido: outra noite, palavras proferidas e uma timidez disfarçada de arrogância desnecessária, porém como único modo de defesa. Inútil, confesso. Já havia deixado algo de mim com você e, imperceptivelmente, algo crescia sem que eu sentisse. Pensei ser uma forte admiração. Foi preciso que outro dia chegasse, que o silêncio invadisse o quarto e a escuridão começasse a consumir-me em flashes de lembranças tolas, porém fortes o bastante para fazer-me perceber que aquele segundo tropeço tornara-se uma luta pela sobrevivência na beira de um precipício.

As horas passavam e eu teimava em batizar aquela verdade de mentira. Era impensável demais achar que aquilo poderia fazer sentido. Revirei-me por horas revendo fatos e autoproclamando-me estúpida. Patética, até. Percebi que fiz justamente o contrário do que queria ter feito, teria sido mais digno eu ter dito as coisas sinceras que passaram-me pela cabeça pra ter respondido as gentilezas que você proferiu. Não sei se não consegui por não ter noção do que sentia, por temer a interpretação ou, ainda, temer querer realmente dizer. Tudo isso atrelado com a falta de coragem, claro. Fui desajeitada, mais uma vez. Evitei olhar diretamente em seus olhos por medo de que você visse o “eu também” descrito nos meus. Seu sorriso já era arma suficiente pra que eu me sentisse vulnerável encarando a razão das minhas fraquezas.

Sei que almejei e provoquei, de certa forma, para que isso ocorresse. Quem sabe se você estivesse do meu lado agora, eu faria de novo.

O que antes deveria ser um tropeço, agora era uma queda abrupta e inesperada. Eu lutei com todas as minhas forças pra manter-me de pé, mas era inevitável. Por mais que meus braços fossem fortes, em contato com os teus, os meus joelhos esmoreciam. Julguei teus lábios como culpados pelo desfalecimento. Praguejei aos ventos, amaldiçoei o destino, esperneei tentando baldadamente resistir à queda. Eu só fui lembrar mais tarde que eu estava vazia até você me beijar e me salvar.

Eu achei que por estar tão focada nos meus planos mais diretos e objetivos eu estaria pisando em terreno saudável e seguro. Contudo, foi preciso que eu caísse desavisada para me desesperar e notar que eu nunca tivera a chance ou permitira-me cair. Fiquei distraída revendo teu leve semblante risonho que, quando voltei a mim, me vi perguntando se poderia ser eu a razão da curvatura de teus lábios. E mais, tendo medo da tua resposta. Porque, enquanto ainda estou caindo, ao mesmo tempo estou descobrindo o que há de novo em mim. Fazendo prerrogativas, pensando em maneiras de tentar ajeitar alguma coisa. Desculpe se tenho me mostrado incompetente, não tenho muita prática. Além disso, essa angústia que não passa tem-me deixado com dor. Justo o sentimento pelo qual ando cheia, tanto no sentido de acumulação quanto irritação.

Sabe, eu não sei lidar com quedas. E se no fim eu acabar estatelada no chão? Não terei forças pra reconstituir os ossos e, ainda, talvez não me sobre nada se esse fogo ardente no meu peito queimar tudo. É que tem uma parte de mim que está aproveitando o momento. Uma sede causada pela saudade – que eu havia esquecido que sentia – de sentir o tórax preenchido com algo bom. Preciso te dizer que não quero acabar ferida. Acredito que temos potencial pra tornar este buraco um abismo. E, pra ser mais sincera ainda, não é nem isso com o que realmente me importo. Não ligaria pro fim dessa história se ela tivesse a oportunidade de existir. Eu gostaria muito de vê-la ganhando enredo, pois quando lembro da introdução, eu sorrio.

Estou com medo de sentir o que eu possa estar sentindo. Mas tua presença já é inevitável e requisitada, assim como teu sorriso que não me sai da memória. Todas estas minhas palavras são, ao mesmo tempo, retribuição e tentativa. Aliadas com uma certa esperança por algo que não é, mas que em mim já acontecera e que você já tinha dado início.

Bonito, continua fazendo o que me faz gostar tanto de ti: tua capacidade de não me decepcionar.

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