A personal suicide

Quando a gente acha que a vida não pode ser mais irônica, é aí que ela se mostra ainda mais. Mesmo que a gente ache que enxerga tudo, sempre estamos cegos. Aquilo que é pode não ser, porque tudo é aparentemente, e aparentemente é sinônimo de relativo, de incerto… Definições da vida.

‘Tudo vai ser diferente’ era o que vivia repetindo a mim mesma sempre que o despertador tocava. E realmente foi, não posso negar, mas agora tudo voltou ao normal, já não vivo mais na irrealidade da realidade que éramos nós. Agora vivo na realidade da irrealidade que somos.

Não sei dizer onde foi que toda a história começou, ou o tempo exato do seu fim. Eu só sei sobre o enredo – um bonito script, aliás. Ainda não acredito que fui selecionada para atriz principal. E que aceitei o convite, pela primeira vez. E justamente por ser a primeira vez que eu almejei tanto que você também encenasse comigo, porque eu finalmente me permiti.

Era sempre tudo natural, cenas externas, internas, cheias de figurantes ou sozinhos. Não preciso dizer quais eram a que eu mais gostava. O fundo musical também me agradava muito, também não poderia ser diferente já que eu selecionei à dedo as músicas que seriam nossas. Eu montei tudo na minha cabeça, e adorava quando você me surpreendia desarrumando toda a cena de uma maneira tão harmônica. Seu sorriso era digno de galã.

Gostava do jeito como você me fazia sentir, não como se eu fosse eu mesma, mas como se fosse uma nova eu mais feliz. Eu não tinha me dado conta que poderia ser tão feliz. E o efeito que causava em mim, era aquela sensação boa de acordar de manhã em pleno domingo e ficar parada à porta da cozinha, olhando os primeiros raios solares incidirem sobre a pele. Era assim que eu te via: um sol, um novo dia, uma nova oportunidade. Alguém que eu quis que visse e tocasse a minha mais profunda camada. Que fizesse tudo desaparecer no instante que olhasse pra mim.

Sucederam-se meses, você sempre fazendo surpresas logo que eu saia da faculdade à noite. Me esperando encostado no carro, mexendo no celular, com um charme que se espalhava pelo ar. Fazia questão de silenciar meus passos e chegar imperceptível aos seus olhos, só pra soprar em seu pescoço e ver como sua pele se arrepiava. E ver você sorrindo depois de um curto susto. Eu sempre quis saber como funcionava essa coisa de amor, e mais do que me ensinar você foi me mostrando aos poucos, sem que eu percebesse.

Você deixou a chave do seu apartamento comigo para que pudéssemos nos encontrar mais livremente, sem precisar fazer estereótipos para as pessoas. Sempre que podia eu passava algumas noites ao seu lado. Encomendávamos comida, conversávamos até altas horas, por vezes víamos filmes ou qualquer outra programação que nos aproximasse ainda mais. Você foi se tornando, pouco a pouco, a realização do meu mundo imaginário que eu nem tive tempo de criar. Tinha vezes que você demorava a aparecer, e eu, sozinha naquele apartamento frio – que ganhava sempre essa característica quando você estava ausente -, vestia qualquer roupa sua que encontrasse.

Acontece que sua ausência foi aumentando gradativamente. As conversas foram se reduzindo. Tudo o que eu tinha de você eram pequenos bilhetes daquela música. Certo dia passei pelo seu apartamento, senti falta das nossas noites, decidi subir. Não sei como, se foi por precaução ou algo te dizia que eu passaria por lá, mas você deixou um bilhete. Odiei cada letra a cada segundo. “Não sei que horas chegarei, saí com uns amigos. Bom, você já é de casa, de qualquer forma, sinta-se à vontade… Peça uma comida, assista um filme. Fique bem, tá?” Eu devia ter ido embora, eu sabia que devia, mas alguma coisa naquele lugar me prendia, ou talvez fossem as letras que me perturbaram tanto que meus pensamentos deixaram de existir instantaneamente. Ou talvez fosse a sua falta que fazia com que eu virasse auto-destrutiva, me auto-sacrificando a ficar ali, sem você. Deitei na cama e cerrei os olhos durante um bom tempo. Ouvi você chegar, senti seu olhar pairar sobre mim. Não abri meus olhos, talvez porque precisasse fingir pra você que estava dormindo pra poder fingir a mim, também, me fazendo acreditar que eu realmente pudesse estar num pesadelo.

Logo de manhã te dei as costas. Decidida a não me importar mais. O que, na verdade, eu sabia que nunca deveria ter deixado de fazer. Não que eu me arrependesse, mas era triste ver que eu deixei alguém entrar e esse alguém decidiu sair. Meu complexo de incômodo me fez acreditar que minha vontade de te guardar lá dentro tenha te sufocado. Você me ligou o dia inteiro e eu fiz questão de ignorar todas as ligações, mas obviamente eu não poderia fugir de você. E não demorou muito pra noite chegar, pra eu ver você encostado no carro, com o mesmo charme. Continuei a me aproximar silenciosa, mas já não soprei no seu pescoço, nem sequer consegui olhar direito em seus olhos. Ambos entramos no carro e permanecemos em silêncio durante todo o trajeto. Sarcasticamente aquela mesma música tocou no rádio. Não nos olhamos, fitamos o aparelho e desviamos o olhar. Mordi meu lábio enquanto você sorriu com o canto da boca.

Era inútil tentar pretender que não estávamos vivendo o fim de algo inacabável. Observando as coisas passarem rapidamente pela janela, meus devaneios finalmente me apontavam coisas concretas. Não é que o amor teria acabado, nós apenas éramos tão sinceros um com o outro que tentar preencher o vazio com qualquer coisa não seria digno. E talvez aquilo era o auge do amor. A negligência da própria felicidade pela do outro era o que havia de mais bonito em amar alguém. Decidir te deixar livre era uma prova de que eu finalmente tinha entendido a profundidade de tudo aquilo. Nós continuávamos nos amando. Só não seríamos mais nós. Seríamos eu e você. Seríamos o amor na sua mais singela forma.

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