Alive

“Pesos desnecessários causam sempre dores desnecessárias. Esvaziei a mala, olhei no fundo dela, limpei, e estou indo preenchê-la com coisas novas. Sensações novas, situações novas, pessoas novas. Tudo novo.” (Caio Fernando Abreu)

Talvez esteja na hora de desistir. Desistir de achar que tudo pode voltar a ser como era antes quando o mundo só te dá sinais de que isso jamais acontecerá. Talvez seja hora de desistir de sonhar com coisas que só o futuro pode trazer, porque quanto mais a gente sonha mais dói. O tempo passa rasgando, matando as coisas aos poucos, porque ele nunca sabe o que quer, passa lento quando queremos que passe rápido e rapidamente quando deveria ser devagar. O ponteiro dos segundos devia ganhar uma lentidão sem igual enquanto estamos sentados num sofá, bebendo com os amigos, e rindo sem precisar se preocupar com o que passa no resto do mundo naquele instante, e deveria ser acelerado quando estamos num domingo à tarde, deitados de varde na cama, pensando e repensando em tudo a cada segundo. É, os domingos podem realmente nos matar aos poucos e docemente.

Ontem eu estava editando algumas fotos que tirei pela cidade, questionando-me o dia exato de quando aquelas fotos foram tiradas, e eu custei a lembrar. Foi preciso fechar os olhos e lembrar do lugar, do dia e, aos poucos, foram-me tomando as sensações e as lembranças, parecia que eu realmente estava de volta lá. Foi um dia qualquer, de quando eu costumava andar pelas ruas do centro despreocupada, com a câmera na mão, que descobri uma passagem – que a maioria das pessoas devem conhecer, mas que eu, até então, nunca havia reparado – e tinha algo de especial nela, talvez a galeria que tinha dentro, os desenhos e as palavras estranhamente separadas em sílabas. Se algum dos transeuntes teve tempo de reparar naquela garota que olhava tudo com um pequeno brilho no olhar, andando lentamente, como se alguma coisa ali pertencesse a ela, com certeza achou estranho. Mas era exatamente assim que eu me sentia, feliz por ter descoberto algo que me encantou assim que meus olhos encontraram. Bom, a passagem dava pra uma parte do Largo da Ordem, logo reconheci pelo tipo do calçamento. Era uma parte muito tranquila, com arquitetura antiga e praticamente sem ninguém ali. Parei em frente à uma Igreja, no meio de um pátio redondo. Ali, num dia nublado normal de Curitiba. Se Clarice Lispector pudesse dar um nome pra minha felicidade naquele instante, definitivamente a chamaria de clandestina. Porque até eu me senti um pouco estranha ao me ver tomada de uma felicidade nova, sem um motivo aparentemente razoável para existir. Afinal, eu estava parada no meio da cidade e, de alguma forma, sentindo-me completa, como se a descoberta daquele lugar fosse só minha, uma conquista, como se aquele lugar e eu pertencêssemos um ao outro. Sei que talvez nada disso faça algum sentido, mas naquele momento os sentidos ganharam espaço. Eu estava só e, ao mesmo tempo, acompanhada da minha felicidade. Uma felicidade que antes não me pertencia, mas agora era minha, toda minha, como aquele lugar que eu acabara de conquistar.

Ao reabrir os olhos não pude evitar lágrimas. Tudo o que eu tenho ao meu redor agora é uma tristeza que a cada dia só aumenta, assim como a minha falta de ter o que fazer. Eu não fui feita para ser morta aos domingos. Eu fui feita pra andar pela cidade tentando encontrar sentido pra tudo, e não ficar deitada fazendo-me mais perguntas. Eu senti falta daquela felicidade, ainda sinto. Assim como sinto falta das minhas pequenas conquistas, porque parece que todas elas agora ficaram presas no futuro… e eu presa nesse presente que não vira passado.

Fico me perguntando ainda como as coisas podem mudar tanto assim. Até um tempo atrás eu ainda me sentia feliz, mas foi 2010 começar e a minha vida acabar. Eu sei que to lutando pra que tudo mude e que já tive minhas pequenas conquistas, mas nada faz essa dor passar. Talvez ela seja mesmo a minha endorfina, minha força vital, aquilo que me locomove, eu só gostaria que ela não doesse tanto algumas horas, porque nessas horas eu tenho vontade de desistir, e isso nunca foi lá a minha cara.

Talvez até eu seja clandestina. Vivendo num mundo que eu gostaria que fosse diferente, vivendo num corpo que eu gostaria que fosse diferente. Posso estar passando a imagem de alguém que é descontente com o que tem, mas não, eu tenho muito que agradecer por ter tudo que eu tive e tenho. As experiências, as condições, as oportunidades e até mesmo todas as dores. Se foram elas que me trouxeram até aqui e fizeram o que eu sou, por que eu mudaria algo? Eu jamais mudaria. Eu até viveria de novo, do mesmo jeito. O que me falta é ter novas oportunidades, ter novamente o que eu tinha. Recuperar-me diante desse tormento que não faz mais sentido pra mim. Mudar. Ter novas conquistas. É isso que eu quero.

Viver.

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