Sem destinatário

Não sei por que escrevo. Pra falar bem a verdade, peguei o papel e a caneta e deixei os dedos se movimentarem de acordo com a mente. Parte dela ainda estava no sonho que tive semana passada, e que há muito tempo não me passava pela cabeça. Apesar de ser um rosto familiar contendo angústias também já conhecidas.

Fiquei horas paralisada no canto da porta escutando a mesma música que servira de trilha sonora, pensando e repensando, tendo de dizer a mim mesma verdades que, apesar de já saber, lá no fundo, eu nunca admitira.

Vou começar contando-lhe do sonho. Não sei se poderei transcrever todas as emoções envolvidas. Prefiro acreditar que você também as possa sentir, e entenda. As ações não foram muitas, uma única dança bastou: a última. Uma dança lenta, numa data memorável. Quase uma valsa. Enfim, éramos nós, abraçados a uma distância perigosa, numa aproximação que há muito não nos permitíamos ficar. Algo que é até engraçado dizer “não estávamos mais acostumados”. Mesmo assim, fazíamos com o mesmo carinho que sempre nos coubera. Tive vontade de deitar minha cabeça em seu ombro e você, pelo menos ali, mesmo sentindo raiva, me abraçava como se meu lugar sempre tivera sido em seus braços.

Nada precisou ser dito. A letra da música era suficiente pra externar tudo aquilo que dizíamos um ao outro no silêncio de nossas mentes. Uma lágrima escorreu de nossos olhos. Uma pontada tomou conta de meu peito e apertei-o contra ele, segurando seus ombros, como se pedisse desesperadamente para que você não me deixasse te afastar de mim mais uma vez. Foi demais para você conseguir suportar. A música também estava no fim, sabíamos que nunca seria eterno. Nos olhamos como se selássemos um beijo escondido no olhar. Você mordeu os lábios, apertou minhas mãos e partiu. Deixou-me atônita no meio da pista, com o coração acelerado, o peito sufocando-me e a respiração ofegante. Uma parte de mim quis impedir que você fosse, mas eu estava certa da escolha que fizera. Era certo te deixar partir.

Achei que acordaria mais assustada do que realmente acordei. Fiquei estupefata, de início. Tentei assimilar achando que poderia entender. Meio utópico demais achar isso. A gente nunca realmente entende tudo o que se passa aqui dentro. Bom, o fato é que isso não me saiu da cabeça. Foi o suficiente pra eu me pegar sentada no canto da porta escutando a mesma música, escrevendo desesperada e agitadamente. Numa velocidade que meus dedos quase não mais acompanhavam. Eu estava em busca de paz desde quando tomei minhas decisões, e só agora eu entendia que fiz tudo errado. Eu tentei esquecer e enterrar algo que jamais deveria ser esquecido. Algo que eu não deveria temer, que eu não deveria me envergonhar ou sentir raiva.

A saudade bateu um pouco, sim. Mas não é uma saudade que fica. É daquelas que vem, te aborrece um pouco e no dia seguinte vai embora. É daquelas que te faz perceber a verdade que estava na sua cara a tanto tempo e você nunca ergueu os olhos para encará-la de frente. Foi uma saudade meio estranha, também. Você fica pensando no que poderia ter sido, no que foi, no que será que vai restar. É uma saudade que às vezes, agora muito raramente, dói.

É como você escreveu no bilhete que me deixou no sonho após aquela dança, esquecer não faz parte do nosso vocabulário. E nem acho que devamos. Não mais. Não agora. Agora eu aprendi que essa saudade é boa, é o sorriso que fica no canto da boca.

Eu não achei a resposta pra pergunta que você me fez. Eu não sei o que dá na gente pra um dia simplesmente não querer mais. Eu sinceramente não sei dizer se foi amor. Foi algo bonito e único, com certeza. Demorei pra conseguir dizer isso em voz alta. Eu tinha medo de sentir, medo de saber que isso nunca mais sairia do meu peito. Mas hoje, depois desse sonho, foi como se eu acordasse libertada. Foi como se eu finalmente pudesse dizer que te amo sem sentir algo ruim no peito e uma dor na consciência. Outra coisa que pude admitir, também, foi que sinto sua falta. Não uma falta de quem precisa ter de volta. Uma falta de alguém que gostaria de saber como você está, o que está sentindo, quais são seus sonhos agora. Porque é estranho saber que eu já não sei mais como é você. Eu te quero bem, sempre quis.

Eu finalmente me sinto livre pra sentir de novo. Assim como você deve estar sentindo coisas novas. As mãos que agora se encaixam na minha fazem parte da minha outra vida, a minha vida sem você. E, quem sabe, essas nossas novas histórias podem não conseguir ser tão bonitas quanto o que nós seríamos, mas nos fazem sorrir, e é isso que importa. É leve, calmo, bonito também. Nós sempre seremos o excesso, e isso nunca fez bem a ninguém.

As últimas notícias que tive é que você parece estar bem. Seguindo em frente. Como você deve saber eu também estou, lutando pelos meus sonhos teimosa como sempre fui. Não sei se essa carta chegará até você, o que eu sei é que ela não poderia ficar na caixa junto das outras que nunca enviei. Só gostaria de dizer que foi bom. Tanto o passado quanto o presente. Está sendo bom, na realidade. Finalmente.

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