Efêmero

No final das contas a procura sempre acaba. Acabamos por encontrar aquilo que procurávamos, mesmo quando é algo pelo qual nem sabíamos que estávamos procurando. Há um tempo atrás eu finalmente encerrei uma de minhas buscas, a qual eu não tinha consciência que buscava, e mais inconscientemente achara a resposta. Foi exatamente em 2009, folheando o livro de literatura que eu a encontrei. Pequena, servindo de legenda pra uma imagem, quase imperceptível, quietinha, bonita. Era uma palavra que eu não estava habituada, mas que mesmo desconhecida, conhecia-me muito bem. Tempos mais tarde que eu fui entender que ela era a minha palavra. Era a minha forma literária, o meu espectro.

Foi naquele mesmo ano – e naquele instante – que eu decidi que ela serviria como nome do meu projeto de vida. O nome que serviria de capa, de resumo pra um destino que eu tracei ali: a escrita. Essa palavrinha não me chamou a atenção pelo significado, de início. Era como se eu, percorrendo a página com os olhos, de repente tivesse me encontrado. Tímida, pequena, estranhamente bonita. Pesquisei seu significado, e nada mais era do que um paradoxo. Algo que exprimia tudo o que sinto dentro de mim. A junção de duas coisas distintas que, com todas as suas diferenças, fundiam-se em uma só. Em algo consubstancial.

Na época eu não tinha me dado conta da tamanha imensidão que esse significado poderia ter. Até então, na verdade, ela sempre fez muito sentido, porém não com tanta acepção. Acontece que um dia eu acordei e olhei para o espelho, como todas as manhãs. Com certa dificuldade, eu mal podia enxergar o reflexo. Todavia, nesse dia, minha miopia parecia, aos poucos, curar-se. Levei um susto quando vi uma figura olhando-me estranhamente. Se não fosse pelos pequenos traços semelhantes, jamais diria que quem eu encarava era eu mesma. O que vi foi uma imagem madura. Uma mulher feita, sem nenhum resquício da transição “menina-mulher” que eu me acostumara. Doeu, às vezes dói, ainda, mas eu já não conseguiria mudar. A decisão já havia sido feita, um pouco antes do tempo, como de praxe.

As cicatrizes continuavam onde estavam. Uma hora aparentes e por outras muito bem disfarçadas. As estrias aumentavam. Resultado natural de inúmeros crescimentos rápidos e consequentes. Dispus-me a viver experiências antes do previsto, e a crescer quase que obrigada. Era apenas mais uma delas, só que essa fora feita decididamente. Pensada. Calculada friamente no calor das emoções. Abandonei o que de ‘menina’ restava em mim. Eu já não me encaixava no mundo em que vivia, apesar de ter que viver presa nele. Assumi. Respirei fundo enquanto analisava atônita e cuidadosamente a nova mulher que me encarava. Eu sabia que seria assim, mas parece que quanto mais se sabe, mais dói.

Os motivos que sempre me levaram a crescer foram em quase toda sua percentualidade de mesmo cunho. Motivos, os quais, eu evito falar sobre pra não constranger os interlocutores de minhas conversas. Eles não saberiam o que me dizer no final, e a verdade é que eu nunca quis escutar nada de ninguém. Eu nunca precisei. Ou julguei nunca precisar. Porque tudo era sempre igual, as pessoas nunca souberam lidar comigo e eu nunca estive disposta a ensiná-las.

Comecei a ter dores intensas de ouvido, de cabeça, enjoos e uma fisgada insuportável que surgia no pescoço e ia até as costas. Não precisei ir ao médico pra saber o prognóstico: estresse. Era óbvio e claro, não só pelos sintomas, mas pelas ríspidas palavras que eu fiz questão de cuspir assim que proferiam-me uma palavra. Eu nunca tive muita paciência e naquele ponto ela já se encontrava esgotada. Eu estava no fundo do poço e bloqueei qualquer intensão mínima de mão estendida.

Sempre acusei cansaço. Dessa vez, eu era consumida por ele. É como se eu tivesse nascido com uma alma precoce para o corpo destinada a viver com seus ímpetos presos ao âmago. Sem poder sair. Talvez isso explique a minha sede insaciável de liberdade. Ao mesmo compasso, dentro de mim, ainda vive uma menininha que ainda tenta se externar. Restringida de minhas decisões, nunca a permiti corroborar qualquer coisa. Ela é a parte de mim que é como qualquer garota, a parte que dói ao se dar conta que eu nunca fui e se revolta ao ver que nunca serei. É a parte que teima e me deixa insensivelmente sensível ao passar do tempo.

Eu ainda estou com o olhar fixado no espelho, tentando enxergar de fato o que ele me apresenta. Minha miopia nunca me permitiu saber de fato o que eu olhava, e até ali isso não fazia diferença, já que eu encontrava-me num período de transição. Mas eu sentia, assim como sinto a mudança incessante no peito e na cabeça. Sei que há algo errado mesmo sem saber denominar. Sei que não pertenço ao que frequento, mesmo sem saber onde é o meu lugar. Sinto que a cada passo livre que dou na rua eu estou cada vez mais me encontrando e me entendendo. Mesmo que eu perca o raciocínio e o entendimento dali cinco segundos. Dessa vez eu só preciso de um pouco mais de cuidado, e de tempo. Mesmo sabendo que quanto mais eu tente entender, eu não conseguirei associar. Mesmo sabendo que a mulher que hoje eu encaro, não será a mesma de amanhã.

A vida é um novo ciclo já conhecido a cada novo instante. A única busca que eu não consegui encerrar foi a busca por mim mesma. Mas, se um dia me perguntarem, eu terei uma palavra pra resumir a única coisa que eu sei sobre mim: chiaroscuro.

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