Embevecer

Há alguma coisa nos seus olhos, algo que eu ainda não pude definir por completo. É uma espécie de gentileza com um brilho de alegria. Algo bom de se envolver. Conjuntamente, há um ponto de malandragem de menino. Uma certeza de quem sabe o que quer, junto com uma ingenuidade nada inocente. Não sei exatamente que mistura é essa, mas é algo que deu muito certo. Nunca consegui encarar olhos alheios por muito tempo, mas o seu me parecia tão confortável que eu só desviei o olhar pra evitar constrangimentos. Tanto seu quanto meu.

Fui um pouco mais abaixo, no sorriso. Dentes alinhados combinando com a suavidade dos lábios. Uma abertura que seria capaz de envolver o mundo todo na sua felicidade. Era contagiosa a curvatura de tua boca, e você fazia questão de mostrá-la, fazendo-me curvar também. Poucas coisas me pareceram tão fáceis quanto estar ao seu lado quando você sorria.

Segredei ao silêncio da noite meus desejos. Cada toque seu em minhas costas era um suplício que eu tentava, em vão, refrear.  Eu não podia negar que havia algo que tomava conta de mim cada vez que meus olhos encontravam os seus. E era difícil tentar ir contra ao magnetismo incontrolável que possuíamos. Era como se a cada novo olhar, uma nova semente germinasse. Seria muito bom se tivessem sido só os olhares… Estava tão acostumada com esquivas que me surpreendi ao me deparar com alguém que fez despertar em mim um desejo de me abrir. Um desejo de querer e ir à luta.

Acordei enrolada no lençol mais do que julgava possível. Era loucura eu lembrar dos detalhes de uma maneira que até as sensações pareciam estar em mim de volta. E eu queria mais. Depois de tanto tempo sendo tratada à base de morfina, a adrenalina me parecia um bom vício para se apegar. E eu fui boa, até. Estava sendo ótima nessa coisa de ser eu mesma, até que eu precisei me resguardar novamente. Motivos óbvios que aparentemente não afetavam a nenhum de nós. Aparentemente, porque lá no fundo eu sabia que haviam sementes demais.

Eu não sei por qual caminho exatamente estou indo. Eu só sei que eu gostei tanto dessa espontaneidade que tenho vivido ela na pele, deixando com que me guie. Há algo de tão natural e simples nisso tudo que nos torna bonitos. Mesmo sem eu poder usar qualquer pronome possessivo. Mas durante alguns segundos eu acreditei que sim. Segundos que talvez tenham me custado plantas que cresceram em ritmo acelerado. Até demais a julgar pelo período.

Apesar de tudo estou consciente. Talvez isso tenha aumentado o que chamo vulgarmente de medo. Um medo bobo, que passa assim que sinto sua presença. É mais um desespero causado pela urgência. Eu sempre precisei ter o controle em minhas mãos, principalmente de mim mesma. Ficar sem saber onde é ou não mais seguro – ou mesmo permitido – pisar nunca foi um dos meus melhores talentos. Interpretar possíveis sinais também não. Quer dizer, não com exatidão. Eu sei que tudo isso pode não passar de uma simples paranóia. Que há muito gasto de energia pra coisas que nunca foram ditas em voz alta. Eu tenho certeza, porque ela passa assim que você confirma as suspeitas da minha loucura. É que no final todos sabemos que se abrir exige cuidado, o que é logo esquecido quando, como aconteceu com você, chega alguém que nos deixa tão à vontade.

Eu sei de todos os riscos, das consequências e mesmo assim teimo em querer continuar. Não quero assustá-lo, o que tenho em mim não é assim tão profundo, nem tampouco idealizado como as paixonites adolescentes tão comuns. A diferença é que o meu sentir é real. Eu sempre quis algo que pudesse ter em mãos e senti algo que, ao mesmo tempo, pode ser escorregadio como pode ser firme. Só basta saber se as mãos estão dispostas a segurar e se há vontade desse algo ficar.

Li uma vez que não existia nada mais sentimental do que escolhas feitas racionalmente. Sinceramente, quanto mais consciente fico, o lado emocional expande de maneira igual. Eu estive disposta a não me interessar e, neste ponto, ultrapassei vários de meus limites. Já mentalizei muitas coisas, quis fugir, ausentei-me. Até agora não entendi muito bem o porquê disso tudo. Tanto das minhas quanto das suas ações. A única coisa que eu sei é que dentro desses olhos eu vislumbrei, pela primeira vez, um lugar que pudesse ser meu.

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