A vista deste lado

Da janela do meu quarto consigo ver as pessoas pegando o ultimo ônibus da noite, algumas com casaco outras de shorts. Acho sempre ironicamente engraçado. Fico imaginando e tentando adivinhar quem está indo para casa, quem vai ao trabalho e quem simplesmente esta andando pela cidade, criando histórias sobre como a mulher usando uma saia azul esta indo encontrar seu namorado, o jovem de casaco roxo escuro com óbvios problemas de postura saindo da casa dos pais após uma grande briga e indo a qualquer boate que numa quarta a noite esteja aberta, e por fim como o velho na camisa cinza não tinha conseguido o emprego que ele tinha feito a entrevista ontem, é, ele parecia triste. Pensando bem, nenhum dos três parecia feliz, afinal era madrugada e eles estavam no ponto de ônibus no frio. Ou no calor, não sei. Aquele casaco e shorts me confundiam.

Da janela do meu quarto eu conseguia ver os animais de estimação da vizinha. E ouvi-los, muito bem. Ela tinha dois cachorros, um gato e para o prazer de todas as minhas noites de insônia, um papagaio. Acho que os cachorros tinham algum complexo de galo pois todos os dias, inexoravelmente ás 7 da manhã, eles uivavam. Engraçado, sempre achei que os cachorros uivavam á noite. O gato por sua vez mal aparecia, como em geral todos os gatos fazem. Já o papagaio me fazia querer rogar praga em todo o regulamento da proteção aos animais e fazer aquele maldito pássaro calar a boca às 3 e meia da manhã. Vai ver ele tinha um complexo de cachorro. Mas pra alguma coisa ele serviu.

Mas o mais importante era que da janela do meu quarto eu conseguia ver você. De um jeito não-assustador e totalmente empolgante nossos quartos ficavam à mesma altura e à metros de distância um do outro, o que levando em conta que moramos em uma cidade grande, do outro lado da rua já é considerado praticamente colegas de quarto. Não era como se eu conseguisse ver você se trocando ou se você estivesse tão próximo de mim quanto o meu travesseiro, mas nós nos víamos o suficiente para passar daquela primeira fase de julgamentos de beleza e personalidade. Eu sentia que te conhecia, e me alegrava quando eu olhava para fora, no começo da madrugada, e a luz de seu quarto ainda estava acesa assim como a minha. Isso me fazia me sentir, sei lá, parte do seu cotidiano, me confortava saber que tínhamos algo em comum. Eu sabia que você curtia futebol americano pelo pôster do New England Patriots na cabeceira da sua cama; sabia que você se vestia com camisas de gola “V” com escritas engraçadas, e tinha quase certeza de que umas duas delas eram do “Pânico na TV”; você também se vestia com camisetas xadrezes que tiravam meu ar; sabia que assistia mais filmes do que programas, e que ficção era o seu favorito; sabia também que tinha um irmãozinho mais novo que usava seu computador quase todas as tardes sem você saber; e o que eu mais tinha certeza era que você, assim como eu, odiava aquele maldito papagaio. Aliás, esse foi o precursor do nosso primeiro encontro.

Havia dois meses que eu tinha me mudado para esse prédio e aquele pássaro estava me deixando louca. Abri minha janela e a brisa da madrugada arrombou meu quarto. Bem à minha frente estava você, com a mesma cara de irado que eu. Nos olhamos por um instante, olhamos para o papagaio e eu abafei uma risada enquanto você tentou fazer o mesmo mas sem sucesso. Em questão de carros a noite estava bem silenciosa, já em questão de animais. Consegui ouvir sua voz falando que era melhor eu me acostumar pois aquele monologo animalesco era comum ali. Não consegui abafar a segunda risada. Reparei que na sua TV estava passando os créditos de filme qualquer e comentei que no canal 52 estava começando um filme bom. Você trocou de canal e concordou com meu gosto para filmes. Ficamos nos olhando até a tensão ficar muito estranha então com um leve aceno disse que iria tentar dormir um pouco e você disse que esperava se “esbarrar” comigo algum dia.

Graças à Deus seu desejo se realizou, senão você nunca teria me pedido em namoro naquela mesma hora naquele mesmo lugar e ao som do mesmo papagaio.

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