Concernência

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E cá estou eu. Sem botões. Sem palavras, sem ordem e sem coerência também. Passei dias fugindo da escrita, porque era sempre nela que eu encontrava respostas, um pouco mais de ajuste para o inajustável, uma compreensão ainda que não totalmente satisfatória – no sentido racional. Sempre fui boa em esquivas e achei que essa não seria mais difícil do que qualquer outra. Eu me enganei, esse tempo todo. Eu fugi porque eu tive medo de entender as coisas. Eu tive medo de escrever, porque aí eu estaria dizendo a mim mesma a verdade que eu já sei, mas preferi manter longe das cordas vocais. E é até engraçado estar dizendo isso quando você é uma pessoa racional. O problema é que eu tive de admitir que eu, além dessa racionalidade irritantemente intensa, também gritava dentro do meu peito regida intensamente pela emoção. Justo eu, que odiava excessos, apesar de já saber que sou a plena complexidade e paradoxo em pessoa, fui ser racional e sentimental demais. E quando essa não é a única descoberta que acaba derrubando várias de suas teorias no chão?

Achei sinceramente que parar de pensar ajudaria, no fim das contas, em algo. A verdade é que eu não deixei de pensar, eu deixei de repensar meus pensamentos. De analisar. Eu os escutava, mas preferia ignorar. Achei que se eu estava realmente disposta a viver as coisas na pele, eu deveria então deixar-me ser guiada pelo impulso. Amadorismo demais pra quem toma todas as suas decisões com no mínimo meia hora de discussão interna. Porém, eu estava realmente disposta. A tentativa, pelo menos, valeu-me de mais auto-conhecimento. E o auto-conhecimento me levou à abstinência.

Levando-se em conta que eu acredito muito que as coisas que acontecem no nosso caminho sempre têm algum motivo, soube aproveitar bem essa fase. Pude perceber que, apesar de ter escrito vários e vários parágrafos, eu não sabia como os terminar. Não consigo escrever sem refletir antes. Não consigo escrever sem sentir de fato cada palavra. Talvez por isso eu tenha demorado a escrever uma linha que faça sentido. Nos últimos dias eu me tornei a intensificação de tudo aquilo que sou com os adicionais que acabei ganhando por aí. Ainda mais complexa, ainda mais paradoxal e, pior, sem conseguir dar conta de entender todo esse tsunami que acabou tornando-se um buraco negro dentro de mim. No fim, eu decidi por mim. Por completo – se é que há alguma coisa inteira aqui. 

E aí eu reparei que eu não sabia escrever sobre outra coisa além da minha vida. Reparei também que, por isso, eu nunca vou deixar de escrever. Se a busca incessante pelo ser completo é inatingível, seria presunção demais achar que um dia eu encontraria a resposta. Por outro lado, seria hipocrisia dizer que essa busca não me tenha dado respostas. O ponto é que as perguntas nunca cessam.

Minha teimosia em querer ser perfeccionista na ênfase do eu me fez ganhar uma atitude atípica e digna de ser nomeada um dos princípios de uma psicose gerada pelo excesso de informação: a necessidade ridícula de querer reafirmar-se a todo momento. Não me culpo 100% por isso, pois a sociedade de hoje está tão vidrada no egocentrismo que você acaba ficando louca e achando que precisa falar sobre si a todo instante, já que as pessoas estão tão preocupadas com o ‘eu’ e nunca param pra olhar pro lado. Longe de me proclamar certa, sei que também tenho minha dose de egoísmo, mas quem me conhece sabe que eu abro mão dos meus problemas pra cuidar dos dos outros. Não é presunção. Eu passei tanto tempo cuidando de mim, que eu me tornei boa nisso. Apesar de meter muito os pés pelas mãos durante a caminhada. Mesmo sempre tendo pessoas ao meu lado que serviram muito de apoio. Eu nunca permiti que entrassem e solucionassem algum dos meus problemas. E pra alguém já tão acostumada com a realidade, lidar com as ilusões alheias me pareceu fácil pra escapar da dureza. Foi fácil, até eu perceber que estava sozinha perdida entre tantos ‘eu’. Os alheios e os meus. O difícil foi ver que quando eu finalmente aceitei a idéia de precisar de alguém – não pra solucionar, mas pra carregar junto – estava perdida e nunca soube transparecer pra deixar evidente a minha necessidade, ainda mais num estágio em que a miopia alheia conseguisse enxergar. 

E aqui eu me torno a tese e a antítese outra vez. A disputa acirrada e equilibrada, resultando na síntese. Uma dialética cheia de perguntas, cheia de respostas e sem fim. Não sei se um dia eu mesma conseguirei fazer sentido. Se deixarei enfim de ser uma contradição. Apesar de incômoda, espero que não. Assim eu sei que terei muitas respostas pra uma mesma pergunta e muitas perguntas com a mesma resposta. Assim eu sei que mesmo dopada de doses cavalares de sanidade, eu serei sempre insana. Eu serei sempre isso, a persistência. Sem mais reafirmações, sem pesos desnecessários, sem fugas e com mais leveza. Já dizia uma música: ‘Just the same old glitter story (…), I must live in skin that’s new’.

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