Nella testa. Nel cuore.

“Talvez seja saudade do tempo em que a gente era mais inteiro, sei lá.”

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Perdi a conta de quantas vezes já assisti ‘Comer, Rezar, Amar’. Na verdade, eu tenho perdido muitas coisas ultimamente. E, talvez, isso tenha me feito desviar o olhar de tudo de bom que eu já ganhei por esse caminho. Mas, por mais que eu tente olhar pro lado bom da vida, sempre tem alguma coisa que me traz de volta para a mesma cena dessa noite: sentada no chão do banheiro, com a água quente correndo pelas minhas costas e chorando, desesperadamente, implorando respostas para Deus. A única coisa que fez essa noite ser diferente de todas as outras é que, normalmente, eu só me sentia abraçada. Hoje, o que eu obtive, foi uma resposta vinda da minha própria voz, soando no fundo da cabeça e, muito calmamente, dizendo: “você não pode ficar aí para sempre.”

Nenhuma  resposta seria mais sensata. Eu realmente não podia ficar ali para sempre, por mais que eu quisesse. Então eu levantei e saí, procurando me encaixar agora debaixo do meu edredom, pronta pra mais uma sessão do mesmo filme. E, não por acaso, esse texto vai ter várias frases dele. Porque é isso que me motivou a reescrever. As conclusões que sempre surgem a cada play. E também porque há meses eu venho tentando concluir coisas, ou melhor, admitindo o que eu não me permitia dizer a mim mesma. Retomei duas frases antigas com isso: “às vezes as pessoas escrevem aquilo que não conseguem dizer” e “a vida seria mais fácil se a gente admitisse um pouco mais”. O problema é que o que não é fácil é justamente admitir e comunicar. São duas falhas que a gente tende a evitar, a virar a esquina sempre que vemos que está vindo em nossa direção.

Então, subitamente, no meio do filme, eu me dei conta que é como se eu tivesse construído minha vida em cima de uma grande cicatriz que, apesar de quieta, sempre está lá. Como uma coisa que você não quer esquecer, não quer deixar pra lá, mas também a deixa intocada o máximo possível. E o que eu percebi é que as ruínas são, realmente, um presente. Um caminho para a transformação. Não que eu tenha deixado de acreditar nisso, mas fardos pesados demais às vezes te fazem questionar suas certezas. E, talvez, seja isso que esteja acontecendo agora. Não é que eu precise de coisas fáceis, eu só não posso lidar com nada tão difícil. Como eu disse, eu tenho perdido coisas demais para lidar com mais perdas. E talvez isso tenha me deixado tão sem paz nos últimos dias. Como minha voz disse, eu não poderia ficar ali para sempre. Eu não posso ficar nessa para sempre. Se os fardos estão pesados então eu apenas tenho que deixá-los no meio do caminho. Não é desistir. É só uma questão de necessidade. De prioridade. Até porque, se os fardos estão tão pesados, se a minha paz foi tirada, se eu me encontro em ruínas e, tenho de confessar, um pleno caco, quer dizer que eu estive tentando alguma coisa. Quer dizer que eu me esforcei para tentar me fazer mais feliz construindo em volta dessa parte arruinada que existe.

A minha vida estava sem paz e eu não sei ainda dizer exatamente o por quê. Eu simplesmente não me sentia parte dela, mesmo tendo participado de tudo conscientemente, de certa forma. E aí que vem a frase “a única coisa mais impossível do que ficar, era ir embora”. Eu estou tentando ao máximo permanecer, porque é a minha vida, afinal, ela deve estar assim por algum motivo. Mas também está correndo sérios riscos de ficar insustentável. Foi preciso muita coragem pra eu dizer em voz alta que eu quero, muito, tão mais desesperadamente do que meu choro, ser feliz. E é engraçado dizer isso quando todo mundo acha que isso seria o mínimo do que saber sobre si. Eu sempre fui muito grata aos meus sofrimentos, por ter aprendido muita coisa crescendo e amadurecendo conforme minha tristeza. Só que eu acho que chegou aquele momento na vida em que não dá mais, que você quer finalmente bater o pé e aceitar o fato de que não quer ser mais infeliz.

E aí vai outro grande agradecimento, apesar de ter me perdido e chorado, em grande parte, por também não mais saber quem eu sou, apesar de tudo isso, das ruínas, do caos, da tristeza, eu ainda pude, mesmo que eu não tenha encontrado as respostas, ter contato com o que as pessoas deixam pra muito mais tarde: o auto-conhecimento. E, sim, eu sei que é contraditório depois de tudo o que eu disse afirmar isso, mas a oportunidade de debater comigo mesma e saber onde eu venho metendo os pés pelas mãos, mesmo tentando achar soluções que são muito difíceis, isso quer dizer que eu posso, pelo menos, concluir quais são meus tropeços.

E eis que me deparo com um grande medo: a mudança. E todo mundo sabe que a gente tem medo da mudança. Sempre queremos que as coisas continuem as mesmas e, por isso, quando elas mudam, nós simplesmente não sabemos o que fazer. E, desesperados, tentamos encontrar a culpa em qualquer outra coisa que não seja em nós mesmos. Sem perceber que, talvez, não haja um verdadeiro culpado. Ou nem culpa. E que não haja nem razões para ter medo. É que o desapego assusta, ainda mais quando você é obrigado a mudar justamente quando você mais estava sentindo, querendo estar ali. Pra alguém que teve de admitir que tem medo de arriscar, como eu, então, está sendo uma grande barreira. Necessária, contudo.

A armadilha é exatamente essa: apegar-se demais às coisas. E eu confesso, mais uma vez, que eu não sou uma das pessoas mais fáceis de se apegar tanto e tão rápido. E não é com felicidade que eu digo isso, porque grande parte das pessoas que são assim, também desapegam mais rápido. Comigo exige tempo,  porque eu me demoro a perceber que enquanto esse tempo está passando, tudo só ganha mais espaço dentro de mim. E quando eu me dou conta que estou verdadeiramente apegada, eu estou tomada por isso. Mas até lá eu já cometi tantos erros, que acabo sempre com mais destroços. E isso, eu sei, é uma das coisas que eu preciso mudar, mesmo que esteja incrustado na minha personalidade.

Acho que é por essas mudanças que hoje eu escrevo aqui. É por medo, e por necessidade. Por não estar conseguindo mais. E eu digo isso por saber que, pra ter obtido uma resposta, mesmo que simples, significa que eu cheguei no meu limite. Significa que eu preciso encontrar algo, definitivamente. Significa que eu vou ter que enfrentar minhas ruínas pra encontrar forças pra, mais uma vez, construir.

O que me conforta é saber que, pelo menos, pr’aquela luta interna, eu já achei uma frase: “Nella testa. Nel cuore.”

Na cabeça. No coração.

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