Delinear

Sofro de pressa. De uma insatisfação crônica. De uma ansiedade de respostas. Sofri tentando achar respostas para o que não deu certo. Sofri lembrando e relembrando, repassando passo a passo. Formulando e reformulando perguntas.

Era quase um masoquismo. Uma desnecessária dose diária de reviver sentimentos. De reviver momentos e experimentar novos finais, meios e até começos. Afinal, talvez, se alguma coisa em algum segundo fosse diferente, nós ainda estaríamos juntos.

Acontece que aquela frase “as coisas acontecem quando têm que acontecer” não é só um clichê. Um conselho vazio. Uma frase de consolo. É a mais pura e simples verdade. Eu estive ocupada demais tentando encontrar desculpas e ignorando a única resposta.

Sabe, o momento certo existe. Mesmo que nós não tenhamos sido apresentados a ele. Existe porque pela última vez eu revivi todas aquelas lembranças e eu soube. Soube que as coisas não deram certo pelo simples fato de que não poderiam dar. Existe um pequeno ensinamento que diz que a vida é feita de momentos e os momentos são o agora. São suas vontades, suas escolhas, seus sentimentos. Esses são momentos dos quais não podemos renunciar, abrir mão ou tentar silenciar.

O meu momento não batia com o seu. Enquanto você queria alguém que acompanhasse seus passos, eu ainda estava traçando os meus. Enquanto eu quis alguém com quem dividir os pesos, era você que queria ser livre. Nós nunca estivemos na mesma sintonia. Nós nunca poderíamos ter sido verdadeiras companhias um para o outro. Acredite, os opostos não se saem muito bem. Muito menos abrir mão de si mesmo por outro alguém.

Depois de entender tudo isso foi mais fácil te deixar ir. Foi mais fácil me deixar levar. Foi mais fácil até de deixar a vida fluir. Eu aprendi a controlar minha mente. Aprendi a não sofrer mais, a andar devagar, sem pressa porque, afinal, essa não é uma busca desenfreada e desesperada por qualquer coisa. Se trata de uma autodescoberta fantástica, uma autodescoberta essencial para saber discernir quem está ou não está com você.

E então eu comecei a enxergar melhor os sentimentos. A delineá-los e, mais do que entendê-los, saber realmente senti-los. Eu comecei a entender que os sentimentos também têm seus momentos e, assim como os próprios momentos, eles têm sua duração e passam. O que sentimos depois é apenas uma projeção, uma lembrança forçada. Um puro masoquismo, uma vontade desnecessária de reviver tudo aquilo.

Quando você verdadeiramente aprende a sentir, você aprende a deixar o sentimento ir, a deixar passar. Desde esse dia eu não sofro mais. A compreensão tem feito parte de mim como eu nunca achei que antes faria. Eu bebi um gole de paz e, agora, minha única ansiedade é por mais.

Agora já consigo me olhar através do espelho sem nenhum vestígio de miopia. Já consigo entender o que sou naquele momento e sei que não será eterno. Agora eu aprendi a ter consciência sobre mim mesma e a chamar pelo nome cada sentimento e vontade que toma conta de mim.

Eu aprendi a me deixar ir.

free

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