Vai dar saudades. Na ida e na volta.

saudade

     E então ela foi. A visão sobre o seu futuro era embaçada, quase irreconhecível, como se de repente arrancassem os seus enormes óculos de grau por trás dos quais ela se esconde – ou pensa que o faz. Incrivelmente, mesmo temporariamente cega, tinha um sentimento prazeroso provindo da incerteza do futuro, como se soubesse que não voltaria a mesma daquela viagem. E não voltou.

     Seu passaporte e passagem em suas mãos pesavam mais que o normal, como se nela contivesse o seu coração, o de sua mãe, do seu pai e irmão, rebatendo o vazio que se instalava no seu peito. Todas as previsões partiam de um sentimento de medo: medo da saudade, medo de não se fazer entender em outra língua, medo de não se dar bem com os novos colegas de trabalho, medo de se virar sozinha, de não botar fogo na cozinha e de aprender a ciência espacial que existe por trás da arte de se dobrar um lençol com elástico nas pontas. Mas a relutância principal era o pavor de ocorrer tudo muito bem e ela não querer mais voltar para casa, de se sentir em casa lá.

     Rio quando o seu pai, ao pé do seu ouvido enquanto a abraçava e despedia-se, sussurrou: “Só não vai arrumar um namorado lá, a passagem é cara”. Mal sabe ele quantas vezes sua filha inocentemente declarou a quem quisesse ouvir que o seu amor não se encontrava no Brasil. Gargalhou, porém com o rosto já com lágrimas, quando o seu irmão a pegou nos braços e disse: “Por favor, vai e volta inteira. E veja se não demora, eu sozinho em casa com os nossos pais não é a melhor das ideias!”. Sua mãe não precisou dizer nada, ambas se entediam só pelo olhar, e podiam sentir as lágrimas rolarem por seus pescoços.

     Fechou a alma para o arrependimento e embarcou, com os braços e mente abertas para o mundo. Os três meses seguintes passaram quase como que em dois atos: o primeiro arrastado e agoniante; o segundo eufórico e – agora – nostálgico.

     O primeiro ato durou – no mundo real – menos que o segundo, porém no pequeno grande mundo da imaginação dela aquele primeiro mês negro parecia ter se estendido por uma larga passagem de tempo. Tudo a lembrava a sua casa e família; odiou a neve e o frio; seu emprego era sacal e estava cansada do couch surfing em casa de intercambistas peruanas e argentinas – quem diria que uma língua tão parecida com o português a irritaria tanto! Era isso, a viagem estava fadada a encerrar mais cedo por motivos de “o que ela estava fazendo lá?!”.

     Em meio ao caos de sua mente e num canto onde o pavor da saudade não tinha se apoderado, chegou um belo dia – e por belo entenda ridiculamente maravilhoso, estilo cena de filme – um “belo dia” montado num cavalo branco pronto para salvá-la de si mesma. O por do sol brilhando em diversos tons, sendo rebatido pela água cristalina do lago, dobrando o seu poder, com as montanhas brancas ao fundo quase como uma pintura emoldurando o pier que parecia ser atraído para o meio do lago. Nesse dia, com este cenário irreal a sua frente nada parecia mais importar, ela estava alí, naquele momento, onde sempre quis estar mesmo antes de escolher estar, e não podia – não se perdoaria – se estragasse tudo graças ao seu sistema nervoso “um pouco” nervoso demais.

     Mudou sua postura com o mundo e foi abençoada com presentes do universo: amizades sinceras, experiências de vida, lembranças doces de tardes preguiçosas, realizações sem possível descrição. Karma is not always a bitch! E assim, meio que por mágica ela entendeu o que estava fazendo lá, o quanto ela precisava daquilo e o crescimento psicológico e espiritual que aquela viagem traria não só a ela, como a sua família também.

     Já não ligava mais para o frio – até gostava – e não conseguia mais ver a sua vida alí sem seus amigos do trabalho e viagem. Tudo se encaixou e aquietou no mundo – no real e no imaginário – e ela podia até cantar: “O Lake Tahoe continua lindo!”.

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