Mudo.

carro

O rádio do meu carro quebrou. Quebrou há algum tempo, mas vivo esquecendo de consertá-lo e acabo tendo que desfrutar forçadamente de um silêncio entre um semáforo e outro. Normalmente eu estaria cantando e interpretando músicas afora, ignorando os olhares estranhos dos pedestres que passam por mim, porém, ali naquele veículo agora sem som, o silêncio me consumia e me forçava a preencher os vazios com pensamentos.

No meu carro ficou o seu cheiro. Aquele perfume que na minha cabeça já está rotulado como seu. Imagino que foi daquela vez que fomos sair pra tomar um sorvete (no maior estilo “somos tão jovens”) o qual acabou virando um café (agora sim, mais na nossa faixa etária) o qual, por sua vez, acabou virando uma sessão de músicas nostálgicas dentro do carro – resquícios de uma época na qual o rádio não havia me deixado ainda.

Essas duas peculiaridades, individualmente, eram inocentes, porém, conjugadas se transformavam no meu pior pesadelo: tempo para pensar em nós. Nosso relacionamento é composto de dualidades, quando eu posso, você não pode; quando você quer eu desvio a atenção; quando estamos juntos é maravilhoso, porém quando nossas mãos não estão perto o suficiente a ponto de se tocarem, mal parece que nos conhecemos. Juntos nosso rádio toca as mais belas músicas, sozinhos meu rádio quebrado me enlouquece em seu silêncio ensurdecedor. E viver nesses extremos está me desgastando tanto que fico perdida, apenas andando por aí, tratando de sobreviver neste meu mundo mudo.

Verdadeiramente não sei o porquê de eu ainda gostar de você, porque que lembranças daquele café – e de tantos outros – me fazem sentir tão bem e como ainda continuo comparando todos a você. Aliás, nem você entende meus motivos, me pergunta o que vi em ti no início e como continuo enxergando isso depois de tudo. Bom, bem vindo ao clube dos que não entendem minha cabeça. Será que o coração quer o que ele quer, mesmo que isto seja o fim dele? –         That´s just fucked up man.

E agora, sentada no meu carro quieto, parada num semáforo verde numa avenida qualquer, ouvindo apenas o som abafado das buzinas dos carros atrás de mim me pedindo parar arrancar, uma ideia me atinge: o problema nunca foi consertar o som – não, isso é fácil – mas sim o medo de eu saber que mesmo funcionando, nossa música nunca mais será tocada no meu rádio.

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