Parte ela, parte mundo.

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     Ela é do tipo que não acredita em signos, mas está sempre por dentro de que casa sua lua se encontra, e não perde uma oportunidade de falar por entre um sorriso solto “Isso é típico de libriano” toda vez que tenho que decidir algo. Sempre levamos um bom tempo decidindo onde vamos jantar. Ela também é de libra. Ela chora assistindo programa de competição de canto, chora assistindo programa de reforma de casas, assistindo o jornal, cara, ela deve chorar até em propaganda de mercado. Não vou negar, as vezes chega a ser patético, mas nunca deixa de ser um ato lindo, um momento só dela, no qual ela não está dando nenhuma importância para a sua opinião e julgamentos. Ela não deixa lágrimas a diminuírem.

     Nem sempre ela chora por estar emocionada com algo, sabe, – como quando a música certa aparece na hora certa no aleatório do Spotify – mas muitas vezes é por pura explosão de raiva mesmo. Me corta o coração ver seus olhos marejarem quando brigamos, pois sei o quanto ela gostaria de se manter forte à minha frente e suportar o seu lado da discussão, sem se render a argumentos soprados por entre soluços e lágrimas. E quando eu finalmente recuo e a abraço, por uns segundos ainda posso ouvir o som abafado dela discutindo consigo mesma e me chamando de idiota. Eu tive que aprender que sua risada tímida, seguido por um “idiota” é seu jeito nada meigo de dizer que me amava. Aliás, essa garota quase não exterioriza a frase “eu te amo”, e sim, prefere me mostrar em pequenos momentos o quão importante sou para ela, seja me mandando no meio da tarde mensagens aleatórias sobre seu dia, ou então, quando me deixa escolher o filme no Netflix por que ela sabe que irá dormir nos primeiros quinze minutos. Malditos librianos, nunca escolhem nada mesmo.

     Com todo respeito aos Raimundos, mas essa é uma mulher de fases. Ela tem pequenas obsessões temporárias e esses dias, por exemplo, passou horas vendo vídeos de coreografias de dança de rua, e chegou em casa já querendo se matricular num desses studios de dança. Semana passada foi a mesma coisa, mas com curso de corte e costura. Claro que a realidade chegou com tudo e ela acabou nunca aprendendo a pregar um botão e o mais perto que ela chega de dançar é quando tem que terminar de se arrumar correndo, por que tinha me falado que iria levar dez minutos para ficar pronta, mas já se passaram vinte e cinco.

     O que parece dançar mesmo, são seus lábios toda vez que ela fica nervosa e começa a falar sem parar. E sem pensar. Essa garota já admitiu que no nosso primeiro encontro se arrependeu de cerca de duas a cada três palavras que falou, pois achou que nem fizeram sentido. Eu me apaixonei em cerca de três a cada três palavras. Ah, falando no nosso primeiro encontro, lembro até hoje dela sentando despreocupadamente na cadeira, enquanto eu, ignorado, fiquei de pé no outro lado da mesa segurando cordialmente a cadeira pra ela sentar. Ela me olhou, com seu rosto ruborizado, e falou um simples “Eu achei que você estava puxando a cadeira para você mesmo ‘ué’!”. Ela quis dividir a conta. Eu não deixei. Ela insistiu. Eu paguei escondido enquanto ela ia no banheiro.

     Ela é do mundo, mas reside no coração de muitos, e leva um número maior ainda no peito. Ela é parte ela, parte eu, parte seus pais, irmãos e amigos. Ela é libriana, chorona, de fases, sincera, feminista e cheia de defeitos.

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