É preciso se deixar levar.

Ele se foi já faz um bom tempo, um ano ou mais, não sei bem ao certo, mas existem manchas suas que estão complicadas de tirar. Achei que se eu deixasse meu coração de molho elas fossem sair mais fácil, mas o processo é lento.

Não impossível. Apenas lento.

Não é como se eu ainda esperasse por ele em algum nível, não, essa mancha já foi esfregada por completo e mesmo se eu voltar a enxergar um resquício dela já não me incomodo de sair e deixar o mundo ver o pouco desta sujeira que ainda me cabe.

Mas sim, ainda existem manchas que me afligem e que instigam a minha insegurança por onde vou. Ele não manchou apenas o meu passado, houveram respingos maiores que eu só fui perceber mais tarde – o que na época era o meu futuro, e hoje meu presente – e que parecem que, por terem sido deixadas de lado, não querem mais sair. Eu vejo o rosto dele em todas as minhas tentativas de relacionamentos, mas não com um saudosismo da “nossa época” ou como um ideal a ser batido, eu o enxergo como uma previsão de que tudo, por mais infinito que pareça, um dia acaba. O seu amor era como um cobertor que me esquentava e que, no dia em que ele chegou e me descobriu, me deixou de alma fria.

Sinto como se eu tivesse medo de o dia que alguém voltar a querer esquentar meu coração de gelo, este apenas derreta. Vivo evitando a felicidade, dando voltas desnecessárias na minha mente, amedrontada não apenas com o pensamento de me machucar novamente, mas também de ser a pessoa que manche a história de alguém. Dá ou não dá pra falar que isso é egoísmo? Guardar afeto apenas para você por receio de machucar os outros?

Por outro lado, tento me lembrar de que não posso personificar o meu pior caso como a história da minha vida. Na minha biografia não pode conter o nome dele em todos os capítulos. Preciso deixar um deles intactos, deixar esta mancha de fora do capítulo em que eu conto como te conheci, e como desde a primeira vez que te vi todos os outros rostos ficaram borrados e esquecidos na escuridão. Eu não tinha previsão nenhuma, e isso era bom.

Então eu te peço uma coisa, quando eu abrir meu coração para você, por favor tente passar por cima do fato de estar frio lá dentro por enquanto – I´m still working on it – porque eu sei e espero que juntando dois corações presos no inverno, nós possamos esperar pelo verão sem medo algum.

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Parte ela, parte mundo.

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     Ela é do tipo que não acredita em signos, mas está sempre por dentro de que casa sua lua se encontra, e não perde uma oportunidade de falar por entre um sorriso solto “Isso é típico de libriano” toda vez que tenho que decidir algo. Sempre levamos um bom tempo decidindo onde vamos jantar. Ela também é de libra. Ela chora assistindo programa de competição de canto, chora assistindo programa de reforma de casas, assistindo o jornal, cara, ela deve chorar até em propaganda de mercado. Não vou negar, as vezes chega a ser patético, mas nunca deixa de ser um ato lindo, um momento só dela, no qual ela não está dando nenhuma importância para a sua opinião e julgamentos. Ela não deixa lágrimas a diminuírem.

     Nem sempre ela chora por estar emocionada com algo, sabe, – como quando a música certa aparece na hora certa no aleatório do Spotify – mas muitas vezes é por pura explosão de raiva mesmo. Me corta o coração ver seus olhos marejarem quando brigamos, pois sei o quanto ela gostaria de se manter forte à minha frente e suportar o seu lado da discussão, sem se render a argumentos soprados por entre soluços e lágrimas. E quando eu finalmente recuo e a abraço, por uns segundos ainda posso ouvir o som abafado dela discutindo consigo mesma e me chamando de idiota. Eu tive que aprender que sua risada tímida, seguido por um “idiota” é seu jeito nada meigo de dizer que me amava. Aliás, essa garota quase não exterioriza a frase “eu te amo”, e sim, prefere me mostrar em pequenos momentos o quão importante sou para ela, seja me mandando no meio da tarde mensagens aleatórias sobre seu dia, ou então, quando me deixa escolher o filme no Netflix por que ela sabe que irá dormir nos primeiros quinze minutos. Malditos librianos, nunca escolhem nada mesmo.

     Com todo respeito aos Raimundos, mas essa é uma mulher de fases. Ela tem pequenas obsessões temporárias e esses dias, por exemplo, passou horas vendo vídeos de coreografias de dança de rua, e chegou em casa já querendo se matricular num desses studios de dança. Semana passada foi a mesma coisa, mas com curso de corte e costura. Claro que a realidade chegou com tudo e ela acabou nunca aprendendo a pregar um botão e o mais perto que ela chega de dançar é quando tem que terminar de se arrumar correndo, por que tinha me falado que iria levar dez minutos para ficar pronta, mas já se passaram vinte e cinco.

     O que parece dançar mesmo, são seus lábios toda vez que ela fica nervosa e começa a falar sem parar. E sem pensar. Essa garota já admitiu que no nosso primeiro encontro se arrependeu de cerca de duas a cada três palavras que falou, pois achou que nem fizeram sentido. Eu me apaixonei em cerca de três a cada três palavras. Ah, falando no nosso primeiro encontro, lembro até hoje dela sentando despreocupadamente na cadeira, enquanto eu, ignorado, fiquei de pé no outro lado da mesa segurando cordialmente a cadeira pra ela sentar. Ela me olhou, com seu rosto ruborizado, e falou um simples “Eu achei que você estava puxando a cadeira para você mesmo ‘ué’!”. Ela quis dividir a conta. Eu não deixei. Ela insistiu. Eu paguei escondido enquanto ela ia no banheiro.

     Ela é do mundo, mas reside no coração de muitos, e leva um número maior ainda no peito. Ela é parte ela, parte eu, parte seus pais, irmãos e amigos. Ela é libriana, chorona, de fases, sincera, feminista e cheia de defeitos.

Mudo.

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O rádio do meu carro quebrou. Quebrou há algum tempo, mas vivo esquecendo de consertá-lo e acabo tendo que desfrutar forçadamente de um silêncio entre um semáforo e outro. Normalmente eu estaria cantando e interpretando músicas afora, ignorando os olhares estranhos dos pedestres que passam por mim, porém, ali naquele veículo agora sem som, o silêncio me consumia e me forçava a preencher os vazios com pensamentos.

No meu carro ficou o seu cheiro. Aquele perfume que na minha cabeça já está rotulado como seu. Imagino que foi daquela vez que fomos sair pra tomar um sorvete (no maior estilo “somos tão jovens”) o qual acabou virando um café (agora sim, mais na nossa faixa etária) o qual, por sua vez, acabou virando uma sessão de músicas nostálgicas dentro do carro – resquícios de uma época na qual o rádio não havia me deixado ainda.

Essas duas peculiaridades, individualmente, eram inocentes, porém, conjugadas se transformavam no meu pior pesadelo: tempo para pensar em nós. Nosso relacionamento é composto de dualidades, quando eu posso, você não pode; quando você quer eu desvio a atenção; quando estamos juntos é maravilhoso, porém quando nossas mãos não estão perto o suficiente a ponto de se tocarem, mal parece que nos conhecemos. Juntos nosso rádio toca as mais belas músicas, sozinhos meu rádio quebrado me enlouquece em seu silêncio ensurdecedor. E viver nesses extremos está me desgastando tanto que fico perdida, apenas andando por aí, tratando de sobreviver neste meu mundo mudo.

Verdadeiramente não sei o porquê de eu ainda gostar de você, porque que lembranças daquele café – e de tantos outros – me fazem sentir tão bem e como ainda continuo comparando todos a você. Aliás, nem você entende meus motivos, me pergunta o que vi em ti no início e como continuo enxergando isso depois de tudo. Bom, bem vindo ao clube dos que não entendem minha cabeça. Será que o coração quer o que ele quer, mesmo que isto seja o fim dele? –         That´s just fucked up man.

E agora, sentada no meu carro quieto, parada num semáforo verde numa avenida qualquer, ouvindo apenas o som abafado das buzinas dos carros atrás de mim me pedindo parar arrancar, uma ideia me atinge: o problema nunca foi consertar o som – não, isso é fácil – mas sim o medo de eu saber que mesmo funcionando, nossa música nunca mais será tocada no meu rádio.

Vai dar saudades. Na ida e na volta.

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     E então ela foi. A visão sobre o seu futuro era embaçada, quase irreconhecível, como se de repente arrancassem os seus enormes óculos de grau por trás dos quais ela se esconde – ou pensa que o faz. Incrivelmente, mesmo temporariamente cega, tinha um sentimento prazeroso provindo da incerteza do futuro, como se soubesse que não voltaria a mesma daquela viagem. E não voltou.

     Seu passaporte e passagem em suas mãos pesavam mais que o normal, como se nela contivesse o seu coração, o de sua mãe, do seu pai e irmão, rebatendo o vazio que se instalava no seu peito. Todas as previsões partiam de um sentimento de medo: medo da saudade, medo de não se fazer entender em outra língua, medo de não se dar bem com os novos colegas de trabalho, medo de se virar sozinha, de não botar fogo na cozinha e de aprender a ciência espacial que existe por trás da arte de se dobrar um lençol com elástico nas pontas. Mas a relutância principal era o pavor de ocorrer tudo muito bem e ela não querer mais voltar para casa, de se sentir em casa lá.

     Rio quando o seu pai, ao pé do seu ouvido enquanto a abraçava e despedia-se, sussurrou: “Só não vai arrumar um namorado lá, a passagem é cara”. Mal sabe ele quantas vezes sua filha inocentemente declarou a quem quisesse ouvir que o seu amor não se encontrava no Brasil. Gargalhou, porém com o rosto já com lágrimas, quando o seu irmão a pegou nos braços e disse: “Por favor, vai e volta inteira. E veja se não demora, eu sozinho em casa com os nossos pais não é a melhor das ideias!”. Sua mãe não precisou dizer nada, ambas se entediam só pelo olhar, e podiam sentir as lágrimas rolarem por seus pescoços.

     Fechou a alma para o arrependimento e embarcou, com os braços e mente abertas para o mundo. Os três meses seguintes passaram quase como que em dois atos: o primeiro arrastado e agoniante; o segundo eufórico e – agora – nostálgico.

     O primeiro ato durou – no mundo real – menos que o segundo, porém no pequeno grande mundo da imaginação dela aquele primeiro mês negro parecia ter se estendido por uma larga passagem de tempo. Tudo a lembrava a sua casa e família; odiou a neve e o frio; seu emprego era sacal e estava cansada do couch surfing em casa de intercambistas peruanas e argentinas – quem diria que uma língua tão parecida com o português a irritaria tanto! Era isso, a viagem estava fadada a encerrar mais cedo por motivos de “o que ela estava fazendo lá?!”.

     Em meio ao caos de sua mente e num canto onde o pavor da saudade não tinha se apoderado, chegou um belo dia – e por belo entenda ridiculamente maravilhoso, estilo cena de filme – um “belo dia” montado num cavalo branco pronto para salvá-la de si mesma. O por do sol brilhando em diversos tons, sendo rebatido pela água cristalina do lago, dobrando o seu poder, com as montanhas brancas ao fundo quase como uma pintura emoldurando o pier que parecia ser atraído para o meio do lago. Nesse dia, com este cenário irreal a sua frente nada parecia mais importar, ela estava alí, naquele momento, onde sempre quis estar mesmo antes de escolher estar, e não podia – não se perdoaria – se estragasse tudo graças ao seu sistema nervoso “um pouco” nervoso demais.

     Mudou sua postura com o mundo e foi abençoada com presentes do universo: amizades sinceras, experiências de vida, lembranças doces de tardes preguiçosas, realizações sem possível descrição. Karma is not always a bitch! E assim, meio que por mágica ela entendeu o que estava fazendo lá, o quanto ela precisava daquilo e o crescimento psicológico e espiritual que aquela viagem traria não só a ela, como a sua família também.

     Já não ligava mais para o frio – até gostava – e não conseguia mais ver a sua vida alí sem seus amigos do trabalho e viagem. Tudo se encaixou e aquietou no mundo – no real e no imaginário – e ela podia até cantar: “O Lake Tahoe continua lindo!”.

Emancipação

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Não sei escrever sobre coisas boas, felizes. É uma falha minha, um erro que sempre tentei corrigir, mas que secretamente não me importo em carregar. Veja bem, eu enxergo uma beleza única e natural na tristeza, há um “quê” no desespero de um coração partido que me atrai para o papel e o lápis, e que forma frases melancólicas e cenas dramáticas em minha mente. Claro que as tais cenas – em sua maioria – são extremamente inspiradas e influenciadas pelas próprias cenas vividas por mim, na minha vida não fictícia, na vida fora do papel. No fundo, escrever é quase como um ritual meu, no qual a minha história deixa de ser “pessoal” e passa a ser “de minha autoria”, se torna apenas um caso que eu ouvi no ônibus ou na faculdade sobre a prima da amiga de alguém.

Prazer, eu sou a prima da amiga de alguém.

É sempre mais fácil de falar, resolver e tomar decisões quando a história em pauta não é a sua, quando o belo desespero de um coração partido não emana de dentro de você. E é por isso que eu escrevo – mesmo sem muitas palavras rebuscadas, mesmo sem muitas frases perfeitamente construídas – para aquietar as angústias do meu peito e me fortalecer para a próxima vez que uma “cena inspiradora” vier batendo em minha, não fictícia, porta.

Claro que eu enfeito um pouco minhas histórias – e quem não o faz? – mas eu sei, a contragosto, que esta é apenas uma das minhas artimanhas para justificar minhas exageradas reações. É-me intrínseco rotular um porquê em tudo, tentar enxergar razão na sequência de atos de alguém, porém esqueço-me de um pequeno detalhe: sentimentos não precisam de razão, são criados sem um porquê específico. Elas apenas existem, se instalam num canto da sua mente e se aquietam, até você finalmente as notar e, a partir daquele ponto, elas se tornam tão óbvias que são impossíveis de ignorar. Por isso não as ignoro – não seria louca de fazê-lo – pelo contrário, as emancipo em forma de textos, dou suas próprias identidades e histórias num pequeno caderno azul que não sai da minha bolsa, e espero – desespero – que fique mais fácil encará-las assim.

Sobre fotos, Maias e mentiras

GATO PRETO

 

Eu achava que não. Merda, eu jurava que você não mexia mais comigo, gritei isso para quem quisesse ouvir, saí distribuindo essa frase como se precisasse provar para mim mesma que ela era verdadeira. Sabe, aquela história que uma mentira contada várias vezes se torna verdade. Então, isso é mentira. Encharquei-me dessa falsidade toda, da frase “eu estou bem, já superei ele”, quase como um hino próprio, um mantra para conseguir seguir em frente.

Relacionei-me com outras pessoas, beijei outras bocas e senti outros corpos juntos ao meu, fui obrigada a fazer isso para não enlouquecer a sua espera, pois esperar por você é quase tão patético quanto esperar pela previsão dos Maias para o fim do mundo em 2012 – aquela expectativa, todos aqueles planos, cenas de filmes passando em minha cabeça, e no fim, não houve um fim. Ainda sinto que não tivemos o ponto final que nosso relacionamento merecia, um ponto final claro e sincero. Por isso ainda vivo esperando por você, meio que sem saber, meio que sem querer enxergar. Bloqueei meus pensamentos sobre nós, ignorei as batidas apressadas do meu coração toda vez que seu nome era sussurrado por alguém e simplesmente me forcei a te superar, bom pelo menos tinha achado que sim.

E então porque que depois de tantos meses, quando finalmente uma mísera foto sua – uma única foto que não consegui evitar, que apareceu no meu facebook na hora certa (ou errada) e no lugar certo (ou errado) – me fez decair tão rapidamente? Uma foto, apenas você de óculos e sua gatinha preta – nada nem ninguém mais – me fez marejar os olhos e acelerar o coração, enquanto minhas mãos suavam frias e minha boca secava. Tudo isso apenas para me provar que não, uma mentira contava várias vezes não se torna realidade, se não eu não teria me apaixonado mais uma vez, tudo de novo, pelo seu eu naquela foto. Porém, já tive provas suficientes na minha vida de que me apaixonar por você é ruim, muito ruim, apocalipticamente ruim. E não quero mais uma previsão desastrosa – estilo Maias 2012 – para ansiar. Eu apenas não quero mais te querer, pois esse querer doentio está, obviamente, me matando e não me deixa seguir em frente.

Porra, quando chegou a famosa data do fim do mundo em 2012, e nada aconteceu, todos seguiram em frente, continuaram suas vidas, viveram o 2013. Você é o meu final de 2012, o meu lindo desastre que não aconteceu, a minha expectativa frustrada, e o que eu só quero agora é o meu 2013. Quero que minha vida continue e que eu fique feliz por isso, preciso poder prever outros desastres em minha vida, não apenas reviver o seu. Quero. Preciso. Apenas, não consigo. Não… Consigo.

About a Perfect Timing

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O que nós estamos fazendo aqui? Realmente é uma coisa que me vem assombrar decorrentes noites, o fato de trocarmos palavras fervorosamente sempre que possível e impossível, mas no fundo não compartilhando nada. Sei da sua vida, do seu cotidiano, mas não sei dos seus pensamentos, do que deste mesmo cotidiano te aflige. Continuo sem saber dos seus medos e conquistas. Continuo sem ser incluída. E então me encontro revivendo os mesmo fantasmas do meu passado, me deixando cair nessa rotina de desamparo – um dejavú indesejável e incontrolável – moldando eu mesma minha sina, forjando a minha dor.

Lembra-se do nosso começo? Aquele início gostoso de encontros casuais, olhares admirados, mentes hipnotizadas pelos lábios defronte a ambos, noites de conversa adentro. Conversas de conteúdo – mesmo que contenham uma ou outra filosofia de bêbado – e sinceras, principal, exclusivas e genuinamente sinceras. Ouso dizer vergonhosamente sinceras. E é honrando esta honestidade toda que tenho que desabar em você e contar: “eu menti…”.

Menti todas as vezes que prontamente disse que estava satisfeita com a nossa situação, porque, a verdade amarga é que não estou – e não sei se algum dia ficarei – feliz e em paz com a inércia do nosso relacionamento. Desculpe-me, achei que eu seria mais elevada que isso, prometi a mim mesma que seria, e não achei que me apegaria tanto a alguém em tão pouco tempo – pelo menos não agora, não depois da tempestade que tem sido dentro de mim – e me assustei com a rapidez que você tomou conta do meu eu por inteiro. Meu corpo e mente anseiam por você, minha pele enrubesce ao ouvir o seu nome, pernas esquecem sua função quando se está por perto, um choque passa pelo meu corpo quando sua mão encosta na minha, subitamente me arrancando do meu devaneio habitual.

Infelizmente, no momento em que eu percebo você relutando sentir o mesmo arrepio, volto ao meu questionamento inicial, a pergunta que me fez refletir: “o que nós estamos fazendo aqui?”. Porém, te peço o favor de tratar essa pergunta como retórica, pois não suportarei outra decaída assim tão perto da anterior. Estou vivendo a filosofia do “viva o agora” e, milagrosamente, nosso “papo furado” diário me faz bem, então ignoro o – grande – arrependimento que certamente se encontra no meu futuro, deixando você me fazer feliz no presente.

No fundo é tudo uma questão de desnivelamento emocional-espiritual. Você entrou na minha vida na hora exata, e eu entrei na sua na errada. Senhoras e senhores, uma salva de palmas para o meu timing horrível. Mais uma vez.

Síndrome do papel em branco.

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Vejo-me presa ao tentar começar um texto, odiando e apagando cada frase que inicio. Tudo que escrevo parece repetitivo e maçante, como se já estivesse escrito aquilo, como se aqueles sentimentos já tivessem sido descritos neste pequeno caderninho que me segue por onde vou.

A repetição é tediosa e inquietante.

O fato é que tudo que eu sinto por você eu já escrevi, mostrei e demonstrei. Joguei todas as minhas cartas na mesa, dei vida ao meu ódio, afeto, desejo, à minha dúvida, enfim, está tudo ali, disfarçado e destrinchado nos textos anteriores. Expus-me por você, fiquei vulnerável ao seu lado, inquieta como uma criança que se gruda no braço da mãe esperando um doce. O doce dos seus lábios nos meus, o doce do seu sim apaixonado. Mas assim como a mãe ignora os pedidos estridentes do filho, você desacreditou em mim, e olhou por através dos meus infinitos sinais. Sim, eu admito que essa suposta criança a qual me assemelho é, e agora não me vem à cabeça nada mais adequado, um tanto quanto pentelha. Pentelha por ter te procurado depois que tudo parecia acabado e distante demais, pentelha por te forçar a me dar uma resposta, e no fundo pentelha por continuar com medo de ficar sozinha.

Sua alienação ao nosso relacionamento não me ajudou em meu trauma, assim como não contribuiu nas nossas segunda, terceira e quarta tentativa de sermos algo mais. Ou até mesmo, de sermos algo. Sempre tento lembrar-me de fazer essa distinção, se o que a gente teve chegou a se solidar, ou se não passou de um deslize, uma curva no meio do caminho que eu não devia ter feito. Ah, como eu queria não tê-la feito. Como eu queria voltar quando nos conhecemos e passar reto por você, te deixar ali do lado, no sofá escuro da nossa amiga em comum, sem me conectar, sem te admirar. Eu desviaria das dezenas de balas que estão me atingindo agora, uma a uma, sem cessar, todas no mesmo ponto. Quem sabe eu não estaria agora perdida em sentimentos confusos, fadada a escolher o que será melhor pra mim no futuro, ao invés de me deixar guiar pelo instinto mais básico – minha vontade de te ter de novo, minha ânsia carnal por você, meu desejo pelo seu amor. Afinal, no fundo eu sei que você foi o meu auge e o meu declínio, a minha história de amor épica e meu desastre homérico. Você me ensinou a amar, e me mostrou o que é decepção, você foi o meu melhor por muito tempo, e o meu pior por um tempo maior ainda.

Você foi a minha grande lição.

E o que tirei de mais importante nessa história toda? Eu te amei. Muito. Mas tive que aprender a me amar mais e a ser forte e te deixar ir, afinal uma coisa que soa tão bem quanto o amor, não deve ser complicado. No fim, cansei de apertar o botão “restart” no nosso jogo falho, de tentar consertar os seus erros. Cansei de te defender quando quem estava sendo atacada era eu, de ouvi de tantas pessoas importantes para mim que você não me merece.

Cansei de escrever sobre você.

It´s effortless to say “I love you guys”

Voltando pra casa da faculdade, sozinha, resolvi colocar meus fones de ouvido e os deixar fazerem a mágica deles: me teletransportarem para um mundo paralelo onde tudo se encontra onde deveria estar, tudo se encaixa perfeitamente, sem esforço, um mundo paralelo muito foda. De repente meu Ipod me surpreende e me joga para outro mundo paralelo, dessa vez um mais nostálgico, saudosista ao extremo, e fitando os pingos de chuva na janela enquanto ouvia Glória – Curitiba e seu dom de transformar um simples passeio de ônibus em cena de filme – voltei dois anos da minha vida. Dois anos apenas, não muita coisa, confesso, mas anos muito importantes sim. Dois anos de mudanças, dois anos de saudades, dois anos de lágrimas choradas num só dia: nossa formatura. Lembro da gente chorando e ao mesmo tempo nos perguntando o porquê das lágrimas, afinal nossa amizade seria a mesma. A resposta todos nós sabíamos, mas ninguém se atreveu a falar. A verdade era que o medo desses momentos ficarem apenas na memória era grande, assim como a necessidade de ter o conforto de vocês todos ao meu lado, dia após dia. Mas isso ninguém conseguiu falar no nosso “último dia estudando juntos”, na verdade não conseguimos falar muita coisa, apenas uns “eu te amo” soluçados e muitas promessas de encontros e saídas futuras, e que por sinal, estão em dívidas.

Quase perdi meu ponto de saída do ônibus distraída com as lembranças das nossas tardes no pátio ouvindo música, tentando cantá-las, dormindo sob o raro sol de Curitiba, tentando entrar num consenso de onde os quase – as vezes mais de – dez amigos queriam ir almoçar. Trabalho árduo das quartas feiras de manhã. Perdi-me também nas conversas antigas, nas piadas internas, nos trabalhos em grupo e nos inúmeros “não quero falar sobre essa prova!” que eram ignorados e interrompidos pelos “qual vocês colocaram na sete?”. Enfim, me deixei ser inundada por mais de dez anos de boas lembranças.

E chegou o início de 2012, alguns foram pra UFPR, outros para a PUC, FAE, tiveram os amores que tentaram cursinho de novo, alguns bobos foram pra UP (sim, você sabe o porque do bobo, lindo!), sem contar uma exceção que nem no Brasil está mais; Começamos a nos autodenominar futuros arquitetos, jornalistas, médicos, empresários, engenheiros, advogados; nos achamos demais com as novas carteiras de motoristas; nos achamos demais com as novas responsabilidades; nos ferramos com as novas responsabilidades; mas continuamos contando nossas histórias uns pros outros, fazendo as mesmas piadas internas, rindo das mesmas bobeiras continuamos na mesma sintonia, e agora além do título de “futuros profissionais” eu tenho a certeza que cada um de vocês terá o título de “futuros melhores amigos de infância”.

Obrigada pelos anos dourados com vocês, pelas boas risadas e pelas lembranças futuras.  Obrigada por serem sempre acessíveis aos meus ataques de choro no meio da noite. E muito obrigada por estarem dispostos a continuarem fazendo nossas loucuras que se transformam nas melhores lembranças.

Pra mim é fácil falar “eu amo vocês, seus putos!”.

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Danger Ahead

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Tendo a distribuir minhas segundas chances muito fácil e aleatoriamente, e me pego afundando em arrependimento em cerca de dois terços desses casos. Não consigo evitar, sou uma darwinista que acredita na evolução do homem – e do “ex” também – e que se vê inclinada a considerar falsos arrependimentos alheios e brilhantes promessas de futuros a lá Disney e seus “felizes para sempre”. Mas a vida, se fosse um roteiro de livro ou filme, não seria de autoria de Walt Disney com participação especial de seus personagens cantantes e dançantes, felizes haja o que houver e puros de corpo e alma; não, a vida está mais para uma adaptação de George R. R. Martin e suas traições, mortes, desastres e sim, um ou outro pseudo-final feliz camuflado nessa histeria toda.

Infelizmente a poeira na nossa histeria é muito densa e bloqueia qualquer tentativa minha de ver o nosso final pseudo-feliz. Eu tomei isso como um sinal de que mesmo é uma utopia. Eu tomei isso como um sinal de que o mesmo era uma utopia da primeira vez também, então meu julgamento está disposto à perícias futuras. Por isso você se encaixa nos 66% que eu voltaria atrás e o qual a porta eu fecharia, trancaria, cimentaria e por fim colocaria uma placa de “Possível coração em pedaços à frente”. Mas a dura realidade é que eu já bloqueei sentimentalmente muitas portas que no fundo precisavam da tão superestimada segunda chance.

Sinto-me diariamente tentada a pegar uma marreta e reabrir algumas dessas aberturas pré-cimentadas, porém – e essa é a beleza do sentimentalismo – agir assim não é uma decisão unilateral e necessita, para se concretizar, do desejo do outro. E ta aí uma coisa que eu já não tenho mais: o seu desejo; a provável parte mais importante dessa equação. Fechei tantas portas – ou melhor, me dando o direito de criar palavras aqui, “refechei” – que me habituei em podar as chances muito cedo e tirar e recolocar em jogo sentimentos que não foram feitos para isso. E enfim, me acostumei com a dor, com o vazio, com a solidão. Acostumei-me principalmente com a rejeição – a precursora dos outros sentimentos citados acima – mas mesmo acostumada ainda a sinto ali no cantinho, espreitando todas as minhas tentativas de felicidade, pronta para se jogar em mim e me derrubar junto a ela. Mas, pensando bem, eu nunca estarei sozinha, os fantasmas das minhas poucas segundas chances erroneamente não dadas sempre estarão comigo.

Eles me assombram.