A-mar

É claro que alguém como você só poderia ter mar no nome. Mar. Essa imensidão toda que sabia perfeitamente como caber aí dentro. Tempestuosa, deixava claro a todos o seu lugar, a sua força. Mas também queria dividir a sua beleza nos dias calmos e ensolarados.

Não sei dizer quais eram meus dias preferidos, mas sei que gostava de todos os humores que decidia ter. Se as ondas batiam se jogando pra lá e pra cá, nos molhando dos pés a cabeça. Ou da calmaria, onde eu podia simplesmente me jogar e boiar como quem não precisa de mais nada. Teu mar era tudo. Tava ali dentro dos seus olhos, tão verdes e tão claros como nos dias que os raios solares desafiavam a beleza das águas forçando um encontro.

Teu mar era meu mar. As águas que eu conhecia tão bem de tanto me aventurar. As águas que mesmo estando em cada canto, eu jamais poderia desvendar tamanha imensidão. Teu mar era vasto, tomava conta de cada pedaço de terra que encontrava, como se quisesse abraçá-lo. Teu mar desconhecia o horizonte, desconhecia o limite. Teu mar era único, era interminável. Era o mar que engloba a tudo e a nós.

Nessas águas havia muito ainda que navegar. Havia a eternidade de ondas que podíamos pular ou simplesmente pegar um jacaré. A mim só coube guardar pedaços seus. Uma concha aqui e ali. O mar era seu e eu que tive o privilégio de me banhar. Eu que tive a licença de achar um pedacinho pra mim na imensidão. Eu que quis teu mar pra me afogar sempre.

É claro que você só podia ser mar, porque o mar só podia ser seu. Tava no seu nome, tava nos seus olhos, tava no destino. Só podia ser tu, mar. Só podia ser imensidão.

Retalhos

Tudo parece ser em outra vida agora. Tento fechar meus olhos e lembrar do seu sorriso, mas as lembranças já são fracas. Parece que não me pertencem mais. Estou lutando com unhas e dentes para não esquecer, mas tudo o que consigo me lembrar agora parece que foi há anos atrás. Outros tempos. Outro eu, outro você.

Seu sorriso agora já não tem a mesma luz. Seu olhar parece distante. Mal consigo ver o seu rosto. Nossos momentos de anos já são apenas segundos e cada milésimo se torna ainda mais difícil. E eu continuo ali tentando mudar alguma coisa, tentando interagir. Tentando fazer com que tudo não sejam apenas imagens que se confundem numa tela.

A verdade é que tudo isso me mudou. Todas essas marcas. Desde que você se foi eu não sou mais a mesma. A vida não é a mesma. Tudo agora são pequenos retalhos de tudo o que já vivemos. E a coisa que eu mais queria poder fazer agora é resgatar as imagens que me restam. Resgatar os detalhes de você que ainda estão em mim. Resgatar tudo o que já fui um dia com você do meu lado.

Toda vez que fecho os olhos agora é para tentar voltar. Tentar reviver. Tentar sentir pelo menos mais uma vez. Eu já não consigo fazer isso como antes. Cada vez que tento é como se mais uma parte se fosse. Tudo parece um filme. As cenas perfeitamente dirigidas, a fotografia já um pouco desgastada. A imagem já ficando envelhecida, a história que se repete, os detalhes que vão ficando para trás.

Mas no fim agora sou apenas espectadora. Espectadora de uma vida que já foi minha. De cenas que eu já participei.

A pior parte é saber que foi baseado em fatos reais.

Ensaio

alone

Isso é sobre estar totalmente quebrada e não saber para onde ir. Chega um determinado ponto da sua vida que você se vê onde você queria estar, mas em um modo totalmente diferente. E você não sabe como agir.

Por um breve momento eu achei mesmo que podia ter as rédeas. Sabe, ser aquela menina que sempre soube o que quer e o caminho exato para atingir. Cheguei muitas vezes a ouvir “ela se basta”. E eu gostava de ser ela. A que chegava e todos sabiam que ela estava bem consigo mesma, com o mundo, com tudo. Tão bem que não precisava de nada além dela mesma para se fazer feliz. E eu fui boa nesse papel. Sei que consegui muitos admiradores que entraram em conflito ao tentar entender ou seguir essa filosofia.

Eu gostava tanto da personagem que encarei o papel com unhas e dentes. Quando percebi, não era a personagem que precisava de mim para viver, mas sim eu que precisava dela para continuar. Eu era como um ensaio mal feito de mim mesma. Uma versão que criei tão boa em ser assim que, de tão bom, se desgastou. Pessoas que se bastam demais não precisam das outras, então por que as outras ficariam? Não ficaram. Uma a uma se retirou da plateia e eu fiquei ali, no palco, sem nenhuma fala.

Dos bastidores comecei a acompanhar os novos passos da história que eu não era mais a protagonista. E fiquei pelos cantos ouvindo os novos atores que seguiam de uma história para a outra. E por que eu também não podia seguir? Não, eu era boa demais para aquele papel. Mas, assim como qualquer história, eu fiquei para trás. O sucesso de bilheteria deu lugar a outro, que deu lugar a outro e mais outro. E eu fiquei. Eu não queria abandonar o palco, mas aquele já não era o meu cenário.

É claro que já te disseram que as mudanças são inevitáveis, assim como a nossa necessidade de nos adaptarmos a elas. Mas quando você se apega demais e aquilo passa a ser o seu equilíbrio, é fácil demais cair e se desnortear. Então, aqui estou eu, revirando as páginas apressadamente para ver se eu ainda posso me encaixar nelas. Para ver se ainda há uma história a ser contada.

No fundo a gente só tem que aprender que a procura não é por um novo personagem, mas por nós mesmos.

Hoje não

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Eu sempre costumo dizer que tudo melhora com o tempo. Mas hoje não foi mais um desses dias. Hoje tua falta doeu. Doeu mais que se uma faca tivesse entrado direto no meu peito. Hoje não teve como escapar. Parecia que tudo aquilo que vivi há seis anos estava de volta. A falta de ar, os porquês, o aperto incessante no peito como se eu estivesse te chamando de volta.

Hoje não deu pra dizer que eu estou bem sem você aqui. Não deu pra me enganar que eu não estava sendo egoísta ao extremo por querer que você ainda estivesse aqui por mim. Talvez alguém tão pura como você não deveria mais estar nesse mundo. Mas essa tua pureza me ajudava tanto a me limpar da vida.

Sabe, quando eu disse que meu sorriso não seria mais o mesmo quando você se foi, eu não menti. Não que eu não tenha tentado – Deus sabe o quanto eu tento todo dia fazer valer a pena. Tive meus momentos, e em todos eles eu desejei que você estivesse ali, partilhando cada segundo.

Só por hoje eu não vou dizer que tá tudo bem. Que a sua falta agora se aquietou aqui no peito – porque a falta mesmo nunca vai embora. Hoje não posso e não quero mais fingir que a tua perda não fez todo o meu mundo cair.

Hoje eu desmoronei, assim como quando soube que eu não tinha mais chão. Eu quis juntar toda aquela areia que andamos juntas pra trazer você de volta. Eu achei que de alguma forma refazendo os passos eu teria qualquer chance. Hoje não deu pra fingir que você simplesmente está em uma longa viagem. E me enganar com as memórias, que estão me deixando, por mais que eu tente prendê-las.

Hoje não está sendo mais fácil. Hoje a tua risada fácil me faz falta. Hoje eu só queria sentar naquelas pedras e ver mais um por do sol com você. Nem que fosse pra você dizer “vai ficar tudo bem”. Hoje eu só quis gritar que te amei, da forma mais pura que o amor pode existir. O amor que nasce sem a gente querer e que cresce porque fizemos questão de amar ainda mais. Amor que não quer nada em troca, além da companhia fácil. Amor de quem não precisa estar perto o tempo todo, mas ainda assim quer estar. Mas que ainda assim escolhe ser.

Hoje eu só queria ter podido frear aquele momento. Só queria que um segundo não fizesse tanta diferença. Hoje não quero mais fingir que tá tudo bem. Hoje, mais uma vez, você não estava aqui.

Depois

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E ali estava ela. Na minha frente, depois de tantos anos. Tomando seu café, com os cabelos presos, óculos e uma concentração incrível no computador. Ela nem notava que eu a observava, assim como nunca notou. Ela é linda. Seja dormindo ou mordendo os lábios quando está ansiosa.

O fato é que agora estamos eu e ela aqui. No mesmo lugar. Depois de anos. Depois das inúmeras vezes que me peguei imaginando como seria encontrá-la por aí, por acidente, depois de tudo. Depois de pensar o que eu diria. Depois de decorar todas as coisas que eu já quis dizer para ela e não pude. Não consegui.

E agora, que finalmente estamos nesse momento, eu olho para ela e me esqueço de tudo. Só consigo pensar nos momentos que vivemos. Essa mulher marcou a minha vida e aposto que nem sabe. A culpa é minha, que não a deixei saber que mesmo naquela época eu já sabia que ela era a mulher mais interessante que passaria na minha vida. Fico imaginando a mulher que ela se tornou hoje.

Eu só queria que ela soubesse que eu errei de todas as formas. Que eu não faço ideia do estrago que possa ter feito, mas sei que jamais deveria ter fugido. Que eu sempre quis que ela fosse feliz. Tão feliz que eu não estava pronto, que eu não era o homem preparado para fazê-la sorrir até com o estômago. Queria que ela soubesse que eu também tinha minhas inseguranças. Que ela também me amedrontava, com seu jeito pronto, decidido.

Ela provavelmente sabe da verdade. Sabe que se, na época, eu estivesse disposto a fazê-la feliz, teria lutado mais por nós dois. Aposto que ela também já sonhou com esse nosso reencontro, mas não da forma como eu sempre pensei. E é isso que me afasta dela hoje. É isso que me impede de levantar, ir até ela e dizer “garota, você sempre mereceu o mundo”. E eu realmente espero que o mundo esteja pronto para ela. Que ela tenha se entregado a ele de uma forma que eu nunca soube fazer. Que eu sei que ela é capaz de abraçá-lo, de se entregar a ele de uma forma tão intensa que eu nunca soube lidar.

O que eu queria dizer para menina que eu conheci é que ela jamais deveria ter medo da sua própria intensidade. Que a culpa sempre foi minha. E que eu sempre desejei que ela crescesse e se tornasse a mulher que tenho certeza que ela é hoje.

Antes que eu consiga criar coragem, já há outra xícara de café a acompanhando. Entre os sorrisos que vejo, tenho a certeza de que ela não abandonou sua intensidade. E que o mundo deu um jeito dela sentir todo o amor que eu nunca pude dar e ela sempre mereceu.

Agora tudo o que eu queria dizer é “trata de ser feliz”.

Mal de Vinicius

Ou sobre como eu encontrei o amor.


namorados

“Mal de Vinicius”. Esse foi o nome que dei para o meu desespero de não encontrar o amor verdadeiro. Tudo porque em alguma aula em algum ano eu soube que todas as suas poesias eram forma de sentir o que nunca encontrara. Eram seus mil amores, dentro e fora do papel.

Poetas adoram escrever sobre o amor. Eu nunca soube escrever poemas, apesar do tema também me encantar. Tentei de tudo, fui até a terra de Vinicius, desandei em paixões, acreditei que superar o medo de se abrir fosse a fórmula mágica.

Acontece que a gente desaprende que o amor é mais simples do que parece. Que, na verdade, é a primeira coisa que aprendemos assim que viemos ao mundo. Que o amor obedece a mesma fórmula da vida: acontece naturalmente. É gratuito, é o simples amar porque se ama. Não há explicação. E é por isso que falar de amor é clichê, é batido. É por isso que tantos poemas, histórias e até guerras se fizeram por ele. Amor é o desespero de se achar a resposta, de encontrar o alívio do saciar da teimosa mente humana, que quer porque quer saber de tudo.

Você já ouviu que amar é coisa que só os loucos sabem. Ou que o melhor da vida é morrer de amor e continuar vivendo. Ou como tantas outras frases de quem já tentou explicar o inexplicável. Amor é clichê porque é comum, porque é “fácil”, e ainda assim não existe nada mais bonito. Peço desculpas em querer me atrever a interpretá-lo, mas, como diria Elton John, é o melhor que eu posso fazer.

Pode ser até pretensão dizer que eu o encontrei, que, assim, com tão pouca idade, eu já tenha certeza do que “ainda não entendo”. Mas, uma das poucas coisas que eu entendi, é que o amor é inexplicável justamente por responder dúvidas que nem você sabia que tinha. Vou soar brega, mas o amor também ensina a gente a ser brega – e gostar disso. Apesar de dizer que não, eu sempre fui desesperadamente apaixonada por me apaixonar. Por sentir. Talvez fosse desespero, pressa. Talvez fosse só desjeito. Me atropelei muitas vezes, querendo acelerar algo que necessita tempo.

O pouco que eu aprendi veio dos seus olhos. Já diziam que os olhos são a janela da alma. Acho que isso é uma das coisas que se aprende: muitas das frases clichês são verdade. Existe uma diferença no olhar que se nota, de longe. Te faz entender porque você nunca entendeu onde estava errando, ou como você estava cega para não notar o óbvio. O amor é óbvio. O seu olhar me deixou bem claro isso. Tudo porque você me explicou através deles coisas que eu nem sabia que não entendia ou que não havia aprendido. Porque os seus olhos me fizeram olhar para o mundo e para mim mesma de uma forma diferente. Acho que no fundo a gente se ensina sem saber que está ensinando.

Se não fossem os seus olhos, meu amor, eu nunca teria enxergado. Quando eles pousam em mim eu simplesmente sei. Eu simplesmente sinto. É como se eu existisse no mundo porque eu existo na sua vida… e mais, porque eu dei vida ao seu olhar. Ou melhor, você deu vida aos meus. Você fez tudo ser mais fácil, é como se a vida fosse mais tranquila com você aqui.

O que eu aprendi é que no amor não tem desjeito, não tem fórmula, não tem complicação. É o velho clichê de que acontece quando tem que acontecer e a frase que toda mãe aconselha a filha: você simplesmente sabe. É um desespero e um desejo permanente que não machucam. Não é a perda da liberdade, mas a liberdade de escolher. É o fogo que arde sem doer. É sentir mais do que se pode e nem por isso desaparecer em si mesmo. É querer gritar porque parece que já não cabe em si. É alarde, inquietação e calmaria. Poderia ser barroco se não fosse romantismo.

O que eu aprendi sobre o amor é que tentá-lo colocar em palavras é só mais uma tentativa de explicar tudo que eu aprendo cada vez que olho para você.


Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vow

casamento

Eu quis te escrever as coisas mais bonitas que podem ser escritas. Eu quis escolher palavras que eu ainda não usei para descrever o que eu também nunca tinha sentido. Eu quis descrever todos os momentos nos quais eu fui completamente feliz sem me tornar repetitiva.

Eu sempre tentei descrever meus sentimentos imaginando acontecimentos que se encaixavam melhor do que os que eu realmente vivi. Eu senti várias coisas por várias pessoas durante todos esses anos, mas nunca vivi um momento que eu pudesse descrever ao invés de inventar. Mas hoje não. Hoje eu estou aqui pra descrever todos os momentos incríveis que eu vivi do seu lado tentando explicar toda essa imensidão de amor que mora em mim. Um amor que encontrou meu coração e, ao invés de se sentir desconfortável, soube se encaixar, soube ocupar cada canto com cuidado, tirando qualquer resquício de medo, qualquer dúvida, qualquer desespero. E eu soube lidar. Pela primeira vez eu soube lidar. Eu pude tatear, pegar sem que ele escapasse por entre meus dedos. Eu pude olhar em seus olhos querendo encará-los o máximo que eu pudesse.

Nada gritou lá dentro. Nada quis sair correndo. Nada fez com que eu me sentisse a parte mais frágil. Nada fez doer de novo. Ao invés disso, o muro que protegia a parte mais frágil de mim quis cair. Você tirou pedra por pedra sem que eu dissesse uma palavra contra. Você quis enxergar aquela menininha amedrontada lá dentro e abraça-la. E me abraçou de um jeito que eu esperei por muito tempo.

É clichê, é sentimental e talvez até seja mesmo repetitivo. Mas nunca foi tão real. Nunca foi tão verdadeiro. Foi a primeira vez que eu realmente gravei todas as formas do seu rosto com a ponta do dedo. Foi a primeira vez realmente que eu me vi deitada no chão sendo apenas eu e você, da forma mais pura. Foi a primeira vez que eu não precisei de mais nada além do seu sorriso. Foi a primeira vez que eu não quis ficar quieta e não calei as três palavras que eu tanto procurei.

E quer saber? Experimentar essas primeiras vezes foi muito mais incrível e especial do que qualquer outra primeira vez. Foi como entender porque eu sempre soube explicar os sentimentos e tendo que criar momentos. Foi entender que não conseguir explicar o que agora eu tenho nas mãos é o que torna tudo isso único. Você é único, meu amor.

Eu quis te mostrar o quanto tudo isso aqui dentro é grande. Eu quis que você sentisse todo meu amor por você. Eu quis que todas essas linhas pudessem traduzir as linhas de todos os sorrisos que eu dei ao seu lado. Eu quis que você soubesse o quanto o mundo fez mais sentido quando você entrou na minha vida. E o quão – pela primeira vez também – eu estou confortável nos seus braços.

Você me mostrou que meu caminho até aqui valeu a pena. E me deu um novo caminho para seguir quando eu achei que não existia nenhum. Você curou todas as cicatrizes. Você trouxe um significado para tudo. Talvez todas essas palavras não tenham sido as mais bonitas, talvez eu não tenha conseguido te explicar tudo que está aqui dentro e talvez eu não tenha conseguido terminar esse texto da forma que eu queria. Mas agora eu sei. Agora eu descobri o que faz alguém ter sempre motivo para escrever, e não são as tristezas que recolhemos pelo caminho – que também já me inspiraram em outras vezes.

Agora eu sei que posso continuar escrevendo sobre a felicidade. Sobre essa imensidão de amor que você me trouxe. Nem que eu tenha que escrever milhões de linhas. Contanto que essas linhas possam te explicar, te mostrar ou mesmo fazer com que você sinta meu amor, todos os dias, até a eternidade. Te fazer entender o que só os loucos sabem.

(In)cômodo

Eu não sei lidar. No fim, você estava certo em achar que talvez eu fosse imatura demais para tudo aquilo, mesmo sendo muito mais madura em outros pontos. Eu nunca soube lidar com todo aquele turbilhão de sentimentos que chegavam a transbordar. Eu sempre os recolhia com medo de que você os visse. Acho que no fundo era por medo de que você fosse embora, por medo de que você não soubesse interpretar e ficasse tão desesperado quanto eu. Mas, ainda mais fundo, talvez fosse a chance de você me ver com outros olhos.

Criamos uma certa distância entre nós, mesmo quando estávamos jogados nos lençóis da forma mais pura que sabíamos estar. Tudo aquilo era muito novo para mim e eu era tão desesperadamente apaixonada por cada segundo que não sabia como te manter ali. E talvez você também não soubesse como me manter. Suas mãos me tocavam constantemente, mas sempre com certo cuidado. Parecia que você também estava enfrentando algo novo. Talvez experimentando o medo de que eu também me afastasse do seu toque.

Nos faltou conhecimento. Por mais curiosos que fôssemos, por mais que gostássemos, o medo soou mais forte. Acho que o que você deveria saber é que eu nunca soube tocar alguém porque não encontrei uma forma que fosse suficientemente verdadeira para demonstrar todo o meu afeto. Pelo menos não fisicamente. Eu te observava tentando demonstrar de alguma forma. Decorei cada sorriso que você dava, pois meus braços eram inseguros demais para te tocar o quanto eu queria.

Você sempre transpirou paixão. Entre abraços, carícias nas mãos e até o arrepio com seu toque em minhas costas. Eu quis te causar toda a vibração que você me causava. Você me mergulhava delicadamente no seu calor e era cada vez mais aconchegante. Seu calor sempre me deixou confortável e meus lábios procuravam demonstrar que eu estava ali. Eu sempre estive, apesar de todos os meus silêncios.

De todas as perguntas que não fizemos, de todas as respostas que não soubemos dar, eu finalmente me lembrei de uma pergunta tua que teria respondido todas as outras. Eu não te disse, mas meu silêncio enquanto eu observava todas as coisas pelos caminhos que fizemos, era porque eu procurava, de alguma forma, te dizer o quanto era bom estar com você.

Eu estava aprendendo a gostar do seu toque. Eu só queria ter aprendido uma forma de te tocar também.

incomodo

Delinear

Sofro de pressa. De uma insatisfação crônica. De uma ansiedade de respostas. Sofri tentando achar respostas para o que não deu certo. Sofri lembrando e relembrando, repassando passo a passo. Formulando e reformulando perguntas.

Era quase um masoquismo. Uma desnecessária dose diária de reviver sentimentos. De reviver momentos e experimentar novos finais, meios e até começos. Afinal, talvez, se alguma coisa em algum segundo fosse diferente, nós ainda estaríamos juntos.

Acontece que aquela frase “as coisas acontecem quando têm que acontecer” não é só um clichê. Um conselho vazio. Uma frase de consolo. É a mais pura e simples verdade. Eu estive ocupada demais tentando encontrar desculpas e ignorando a única resposta.

Sabe, o momento certo existe. Mesmo que nós não tenhamos sido apresentados a ele. Existe porque pela última vez eu revivi todas aquelas lembranças e eu soube. Soube que as coisas não deram certo pelo simples fato de que não poderiam dar. Existe um pequeno ensinamento que diz que a vida é feita de momentos e os momentos são o agora. São suas vontades, suas escolhas, seus sentimentos. Esses são momentos dos quais não podemos renunciar, abrir mão ou tentar silenciar.

O meu momento não batia com o seu. Enquanto você queria alguém que acompanhasse seus passos, eu ainda estava traçando os meus. Enquanto eu quis alguém com quem dividir os pesos, era você que queria ser livre. Nós nunca estivemos na mesma sintonia. Nós nunca poderíamos ter sido verdadeiras companhias um para o outro. Acredite, os opostos não se saem muito bem. Muito menos abrir mão de si mesmo por outro alguém.

Depois de entender tudo isso foi mais fácil te deixar ir. Foi mais fácil me deixar levar. Foi mais fácil até de deixar a vida fluir. Eu aprendi a controlar minha mente. Aprendi a não sofrer mais, a andar devagar, sem pressa porque, afinal, essa não é uma busca desenfreada e desesperada por qualquer coisa. Se trata de uma autodescoberta fantástica, uma autodescoberta essencial para saber discernir quem está ou não está com você.

E então eu comecei a enxergar melhor os sentimentos. A delineá-los e, mais do que entendê-los, saber realmente senti-los. Eu comecei a entender que os sentimentos também têm seus momentos e, assim como os próprios momentos, eles têm sua duração e passam. O que sentimos depois é apenas uma projeção, uma lembrança forçada. Um puro masoquismo, uma vontade desnecessária de reviver tudo aquilo.

Quando você verdadeiramente aprende a sentir, você aprende a deixar o sentimento ir, a deixar passar. Desde esse dia eu não sofro mais. A compreensão tem feito parte de mim como eu nunca achei que antes faria. Eu bebi um gole de paz e, agora, minha única ansiedade é por mais.

Agora já consigo me olhar através do espelho sem nenhum vestígio de miopia. Já consigo entender o que sou naquele momento e sei que não será eterno. Agora eu aprendi a ter consciência sobre mim mesma e a chamar pelo nome cada sentimento e vontade que toma conta de mim.

Eu aprendi a me deixar ir.

free

Início

inevitável

Eu gostaria de dizer para você nunca mais encostar seus lábios nos meus, porque é a partir dai que tudo estraga. E é justamente a primeira coisa que a gente faz. Inevitável e irresistível. Eu sei. Porém, destrutivo também. Provoca uma sede compulsiva. Deixa dentro de ti um pouco do outro e esse pouco parece que aumenta a cada novo beijo, a cada nova separação, a cada nova visita. Daqui a pouco vira um muito tão grande que, quando é desfeito, tira um pedaço enorme de ti.

Eu não sei por que é que a gente tem que complicar tanto as coisas. Nada pode ser levado aos poucos – quase que inocente -, como se você quisesse atribuir cada pequeno detalhe de outrem para si. Eu sei que é horrível a angústia de não saber o que é que se tem em mãos, se você pode definitivamente segurá-lo. Mas eu gosto dessa coisa de sentir entre as pontas dos dedos. Dessa coisa de sorrir pelos ares por qualquer coisa boba. De ficar feliz com qualquer insinuação.

Às vezes eu acho que a vida deveria ser feita dessas pequenas provocações. Essas do início de qualquer relacionamento, que mantém viva aquela chama, aquela angústia, aquela vontade de encarar aqueles olhos novamente. Aquela coisa sem pressa, mas que te invade como uma avalanche causada por um pequeno estalo. Eu nunca perdi isso com você, sabia? Eu ainda fico extremamente feliz com cada mensagem. Eu ainda tremo só com a possibilidade de te encontrar. Meu coração ainda dispara cada vez que encontro seu sorriso. Eu ainda sorrio ao imaginar qualquer pedacinho de futuro.

É como se a cada novo encontro ainda fosse a primeira vez. Mas uma primeira vez ainda mais prazerosa. São brilhos nos olhos e sorrisos de quem já sabe, mas parece nunca parar de se surpreender. Parece que a distância aproxima. Lembranças e sorrisos surgem, porque no fundo a gente sabe o que guarda. Nós sabemos que apesar de ser complicado por fora, lá dentro sempre foi simples. Sempre foi desejo e carinho, dos mais verdadeiros.

Eu acho que nós sempre fomos o inevitável. A vontade que eu ainda sinto de você só me comprova isso. Se eu pudesse, teria parado o tempo e o mundo para o momento em que eu estava em suas mãos, na primeira vez. Nós ainda não tínhamos nos beijado, mas você me segurava de um jeito que dizia ‘você é minha’, e eu sem saber já era mesmo sua.

Eu teria parado o tempo e a vida no momento em que dormimos juntos e abraçados. Eu desaceleraria os segundos só para que a sensação de ter seus lábios em minhas costas durasse mais. Eu teria parado o tempo, porque são essas sensações simples que deixam a vida mais leve. Que deixam aquele sorriso no canto da boca o dia inteiro. Que nos fazem encarar qualquer situação com simpatia, com calma.

Eu queria ter parado o mundo para que continuássemos sendo o inevitável, pelo resto de nossas vidas.