Mal de Vinicius

Ou sobre como eu encontrei o amor.


namorados

“Mal de Vinicius”. Esse foi o nome que dei para o meu desespero de não encontrar o amor verdadeiro. Tudo porque em alguma aula em algum ano eu soube que todas as suas poesias eram forma de sentir o que nunca encontrara. Eram seus mil amores, dentro e fora do papel.

Poetas adoram escrever sobre o amor. Eu nunca soube escrever poemas, apesar do tema também me encantar. Tentei de tudo, fui até a terra de Vinicius, desandei em paixões, acreditei que superar o medo de se abrir fosse a fórmula mágica.

Acontece que a gente desaprende que o amor é mais simples do que parece. Que, na verdade, é a primeira coisa que aprendemos assim que viemos ao mundo. Que o amor obedece a mesma fórmula da vida: acontece naturalmente. É gratuito, é o simples amar porque se ama. Não há explicação. E é por isso que falar de amor é clichê, é batido. É por isso que tantos poemas, histórias e até guerras se fizeram por ele. Amor é o desespero de se achar a resposta, de encontrar o alívio do saciar da teimosa mente humana, que quer porque quer saber de tudo.

Você já ouviu que amar é coisa que só os loucos sabem. Ou que o melhor da vida é morrer de amor e continuar vivendo. Ou como tantas outras frases de quem já tentou explicar o inexplicável. Amor é clichê porque é comum, porque é “fácil”, e ainda assim não existe nada mais bonito. Peço desculpas em querer me atrever a interpretá-lo, mas, como diria Elton John, é o melhor que eu posso fazer.

Pode ser até pretensão dizer que eu o encontrei, que, assim, com tão pouca idade, eu já tenha certeza do que “ainda não entendo”. Mas, uma das poucas coisas que eu entendi, é que o amor é inexplicável justamente por responder dúvidas que nem você sabia que tinha. Vou soar brega, mas o amor também ensina a gente a ser brega – e gostar disso. Apesar de dizer que não, eu sempre fui desesperadamente apaixonada por me apaixonar. Por sentir. Talvez fosse desespero, pressa. Talvez fosse só desjeito. Me atropelei muitas vezes, querendo acelerar algo que necessita tempo.

O pouco que eu aprendi veio dos seus olhos. Já diziam que os olhos são a janela da alma. Acho que isso é uma das coisas que se aprende: muitas das frases clichês são verdade. Existe uma diferença no olhar que se nota, de longe. Te faz entender porque você nunca entendeu onde estava errando, ou como você estava cega para não notar o óbvio. O amor é óbvio. O seu olhar me deixou bem claro isso. Tudo porque você me explicou através deles coisas que eu nem sabia que não entendia ou que não havia aprendido. Porque os seus olhos me fizeram olhar para o mundo e para mim mesma de uma forma diferente. Acho que no fundo a gente se ensina sem saber que está ensinando.

Se não fossem os seus olhos, meu amor, eu nunca teria enxergado. Quando eles pousam em mim eu simplesmente sei. Eu simplesmente sinto. É como se eu existisse no mundo porque eu existo na sua vida… e mais, porque eu dei vida ao seu olhar. Ou melhor, você deu vida aos meus. Você fez tudo ser mais fácil, é como se a vida fosse mais tranquila com você aqui.

O que eu aprendi é que no amor não tem desjeito, não tem fórmula, não tem complicação. É o velho clichê de que acontece quando tem que acontecer e a frase que toda mãe aconselha a filha: você simplesmente sabe. É um desespero e um desejo permanente que não machucam. Não é a perda da liberdade, mas a liberdade de escolher. É o fogo que arde sem doer. É sentir mais do que se pode e nem por isso desaparecer em si mesmo. É querer gritar porque parece que já não cabe em si. É alarde, inquietação e calmaria. Poderia ser barroco se não fosse romantismo.

O que eu aprendi sobre o amor é que tentá-lo colocar em palavras é só mais uma tentativa de explicar tudo que eu aprendo cada vez que olho para você.


Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Emancipação

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Não sei escrever sobre coisas boas, felizes. É uma falha minha, um erro que sempre tentei corrigir, mas que secretamente não me importo em carregar. Veja bem, eu enxergo uma beleza única e natural na tristeza, há um “quê” no desespero de um coração partido que me atrai para o papel e o lápis, e que forma frases melancólicas e cenas dramáticas em minha mente. Claro que as tais cenas – em sua maioria – são extremamente inspiradas e influenciadas pelas próprias cenas vividas por mim, na minha vida não fictícia, na vida fora do papel. No fundo, escrever é quase como um ritual meu, no qual a minha história deixa de ser “pessoal” e passa a ser “de minha autoria”, se torna apenas um caso que eu ouvi no ônibus ou na faculdade sobre a prima da amiga de alguém.

Prazer, eu sou a prima da amiga de alguém.

É sempre mais fácil de falar, resolver e tomar decisões quando a história em pauta não é a sua, quando o belo desespero de um coração partido não emana de dentro de você. E é por isso que eu escrevo – mesmo sem muitas palavras rebuscadas, mesmo sem muitas frases perfeitamente construídas – para aquietar as angústias do meu peito e me fortalecer para a próxima vez que uma “cena inspiradora” vier batendo em minha, não fictícia, porta.

Claro que eu enfeito um pouco minhas histórias – e quem não o faz? – mas eu sei, a contragosto, que esta é apenas uma das minhas artimanhas para justificar minhas exageradas reações. É-me intrínseco rotular um porquê em tudo, tentar enxergar razão na sequência de atos de alguém, porém esqueço-me de um pequeno detalhe: sentimentos não precisam de razão, são criados sem um porquê específico. Elas apenas existem, se instalam num canto da sua mente e se aquietam, até você finalmente as notar e, a partir daquele ponto, elas se tornam tão óbvias que são impossíveis de ignorar. Por isso não as ignoro – não seria louca de fazê-lo – pelo contrário, as emancipo em forma de textos, dou suas próprias identidades e histórias num pequeno caderno azul que não sai da minha bolsa, e espero – desespero – que fique mais fácil encará-las assim.

Vow

casamento

Eu quis te escrever as coisas mais bonitas que podem ser escritas. Eu quis escolher palavras que eu ainda não usei para descrever o que eu também nunca tinha sentido. Eu quis descrever todos os momentos nos quais eu fui completamente feliz sem me tornar repetitiva.

Eu sempre tentei descrever meus sentimentos imaginando acontecimentos que se encaixavam melhor do que os que eu realmente vivi. Eu senti várias coisas por várias pessoas durante todos esses anos, mas nunca vivi um momento que eu pudesse descrever ao invés de inventar. Mas hoje não. Hoje eu estou aqui pra descrever todos os momentos incríveis que eu vivi do seu lado tentando explicar toda essa imensidão de amor que mora em mim. Um amor que encontrou meu coração e, ao invés de se sentir desconfortável, soube se encaixar, soube ocupar cada canto com cuidado, tirando qualquer resquício de medo, qualquer dúvida, qualquer desespero. E eu soube lidar. Pela primeira vez eu soube lidar. Eu pude tatear, pegar sem que ele escapasse por entre meus dedos. Eu pude olhar em seus olhos querendo encará-los o máximo que eu pudesse.

Nada gritou lá dentro. Nada quis sair correndo. Nada fez com que eu me sentisse a parte mais frágil. Nada fez doer de novo. Ao invés disso, o muro que protegia a parte mais frágil de mim quis cair. Você tirou pedra por pedra sem que eu dissesse uma palavra contra. Você quis enxergar aquela menininha amedrontada lá dentro e abraça-la. E me abraçou de um jeito que eu esperei por muito tempo.

É clichê, é sentimental e talvez até seja mesmo repetitivo. Mas nunca foi tão real. Nunca foi tão verdadeiro. Foi a primeira vez que eu realmente gravei todas as formas do seu rosto com a ponta do dedo. Foi a primeira vez realmente que eu me vi deitada no chão sendo apenas eu e você, da forma mais pura. Foi a primeira vez que eu não precisei de mais nada além do seu sorriso. Foi a primeira vez que eu não quis ficar quieta e não calei as três palavras que eu tanto procurei.

E quer saber? Experimentar essas primeiras vezes foi muito mais incrível e especial do que qualquer outra primeira vez. Foi como entender porque eu sempre soube explicar os sentimentos e tendo que criar momentos. Foi entender que não conseguir explicar o que agora eu tenho nas mãos é o que torna tudo isso único. Você é único, meu amor.

Eu quis te mostrar o quanto tudo isso aqui dentro é grande. Eu quis que você sentisse todo meu amor por você. Eu quis que todas essas linhas pudessem traduzir as linhas de todos os sorrisos que eu dei ao seu lado. Eu quis que você soubesse o quanto o mundo fez mais sentido quando você entrou na minha vida. E o quão – pela primeira vez também – eu estou confortável nos seus braços.

Você me mostrou que meu caminho até aqui valeu a pena. E me deu um novo caminho para seguir quando eu achei que não existia nenhum. Você curou todas as cicatrizes. Você trouxe um significado para tudo. Talvez todas essas palavras não tenham sido as mais bonitas, talvez eu não tenha conseguido te explicar tudo que está aqui dentro e talvez eu não tenha conseguido terminar esse texto da forma que eu queria. Mas agora eu sei. Agora eu descobri o que faz alguém ter sempre motivo para escrever, e não são as tristezas que recolhemos pelo caminho – que também já me inspiraram em outras vezes.

Agora eu sei que posso continuar escrevendo sobre a felicidade. Sobre essa imensidão de amor que você me trouxe. Nem que eu tenha que escrever milhões de linhas. Contanto que essas linhas possam te explicar, te mostrar ou mesmo fazer com que você sinta meu amor, todos os dias, até a eternidade. Te fazer entender o que só os loucos sabem.

Sobre fotos, Maias e mentiras

GATO PRETO

 

Eu achava que não. Merda, eu jurava que você não mexia mais comigo, gritei isso para quem quisesse ouvir, saí distribuindo essa frase como se precisasse provar para mim mesma que ela era verdadeira. Sabe, aquela história que uma mentira contada várias vezes se torna verdade. Então, isso é mentira. Encharquei-me dessa falsidade toda, da frase “eu estou bem, já superei ele”, quase como um hino próprio, um mantra para conseguir seguir em frente.

Relacionei-me com outras pessoas, beijei outras bocas e senti outros corpos juntos ao meu, fui obrigada a fazer isso para não enlouquecer a sua espera, pois esperar por você é quase tão patético quanto esperar pela previsão dos Maias para o fim do mundo em 2012 – aquela expectativa, todos aqueles planos, cenas de filmes passando em minha cabeça, e no fim, não houve um fim. Ainda sinto que não tivemos o ponto final que nosso relacionamento merecia, um ponto final claro e sincero. Por isso ainda vivo esperando por você, meio que sem saber, meio que sem querer enxergar. Bloqueei meus pensamentos sobre nós, ignorei as batidas apressadas do meu coração toda vez que seu nome era sussurrado por alguém e simplesmente me forcei a te superar, bom pelo menos tinha achado que sim.

E então porque que depois de tantos meses, quando finalmente uma mísera foto sua – uma única foto que não consegui evitar, que apareceu no meu facebook na hora certa (ou errada) e no lugar certo (ou errado) – me fez decair tão rapidamente? Uma foto, apenas você de óculos e sua gatinha preta – nada nem ninguém mais – me fez marejar os olhos e acelerar o coração, enquanto minhas mãos suavam frias e minha boca secava. Tudo isso apenas para me provar que não, uma mentira contava várias vezes não se torna realidade, se não eu não teria me apaixonado mais uma vez, tudo de novo, pelo seu eu naquela foto. Porém, já tive provas suficientes na minha vida de que me apaixonar por você é ruim, muito ruim, apocalipticamente ruim. E não quero mais uma previsão desastrosa – estilo Maias 2012 – para ansiar. Eu apenas não quero mais te querer, pois esse querer doentio está, obviamente, me matando e não me deixa seguir em frente.

Porra, quando chegou a famosa data do fim do mundo em 2012, e nada aconteceu, todos seguiram em frente, continuaram suas vidas, viveram o 2013. Você é o meu final de 2012, o meu lindo desastre que não aconteceu, a minha expectativa frustrada, e o que eu só quero agora é o meu 2013. Quero que minha vida continue e que eu fique feliz por isso, preciso poder prever outros desastres em minha vida, não apenas reviver o seu. Quero. Preciso. Apenas, não consigo. Não… Consigo.

(In)cômodo

Eu não sei lidar. No fim, você estava certo em achar que talvez eu fosse imatura demais para tudo aquilo, mesmo sendo muito mais madura em outros pontos. Eu nunca soube lidar com todo aquele turbilhão de sentimentos que chegavam a transbordar. Eu sempre os recolhia com medo de que você os visse. Acho que no fundo era por medo de que você fosse embora, por medo de que você não soubesse interpretar e ficasse tão desesperado quanto eu. Mas, ainda mais fundo, talvez fosse a chance de você me ver com outros olhos.

Criamos uma certa distância entre nós, mesmo quando estávamos jogados nos lençóis da forma mais pura que sabíamos estar. Tudo aquilo era muito novo para mim e eu era tão desesperadamente apaixonada por cada segundo que não sabia como te manter ali. E talvez você também não soubesse como me manter. Suas mãos me tocavam constantemente, mas sempre com certo cuidado. Parecia que você também estava enfrentando algo novo. Talvez experimentando o medo de que eu também me afastasse do seu toque.

Nos faltou conhecimento. Por mais curiosos que fôssemos, por mais que gostássemos, o medo soou mais forte. Acho que o que você deveria saber é que eu nunca soube tocar alguém porque não encontrei uma forma que fosse suficientemente verdadeira para demonstrar todo o meu afeto. Pelo menos não fisicamente. Eu te observava tentando demonstrar de alguma forma. Decorei cada sorriso que você dava, pois meus braços eram inseguros demais para te tocar o quanto eu queria.

Você sempre transpirou paixão. Entre abraços, carícias nas mãos e até o arrepio com seu toque em minhas costas. Eu quis te causar toda a vibração que você me causava. Você me mergulhava delicadamente no seu calor e era cada vez mais aconchegante. Seu calor sempre me deixou confortável e meus lábios procuravam demonstrar que eu estava ali. Eu sempre estive, apesar de todos os meus silêncios.

De todas as perguntas que não fizemos, de todas as respostas que não soubemos dar, eu finalmente me lembrei de uma pergunta tua que teria respondido todas as outras. Eu não te disse, mas meu silêncio enquanto eu observava todas as coisas pelos caminhos que fizemos, era porque eu procurava, de alguma forma, te dizer o quanto era bom estar com você.

Eu estava aprendendo a gostar do seu toque. Eu só queria ter aprendido uma forma de te tocar também.

incomodo

Delinear

Sofro de pressa. De uma insatisfação crônica. De uma ansiedade de respostas. Sofri tentando achar respostas para o que não deu certo. Sofri lembrando e relembrando, repassando passo a passo. Formulando e reformulando perguntas.

Era quase um masoquismo. Uma desnecessária dose diária de reviver sentimentos. De reviver momentos e experimentar novos finais, meios e até começos. Afinal, talvez, se alguma coisa em algum segundo fosse diferente, nós ainda estaríamos juntos.

Acontece que aquela frase “as coisas acontecem quando têm que acontecer” não é só um clichê. Um conselho vazio. Uma frase de consolo. É a mais pura e simples verdade. Eu estive ocupada demais tentando encontrar desculpas e ignorando a única resposta.

Sabe, o momento certo existe. Mesmo que nós não tenhamos sido apresentados a ele. Existe porque pela última vez eu revivi todas aquelas lembranças e eu soube. Soube que as coisas não deram certo pelo simples fato de que não poderiam dar. Existe um pequeno ensinamento que diz que a vida é feita de momentos e os momentos são o agora. São suas vontades, suas escolhas, seus sentimentos. Esses são momentos dos quais não podemos renunciar, abrir mão ou tentar silenciar.

O meu momento não batia com o seu. Enquanto você queria alguém que acompanhasse seus passos, eu ainda estava traçando os meus. Enquanto eu quis alguém com quem dividir os pesos, era você que queria ser livre. Nós nunca estivemos na mesma sintonia. Nós nunca poderíamos ter sido verdadeiras companhias um para o outro. Acredite, os opostos não se saem muito bem. Muito menos abrir mão de si mesmo por outro alguém.

Depois de entender tudo isso foi mais fácil te deixar ir. Foi mais fácil me deixar levar. Foi mais fácil até de deixar a vida fluir. Eu aprendi a controlar minha mente. Aprendi a não sofrer mais, a andar devagar, sem pressa porque, afinal, essa não é uma busca desenfreada e desesperada por qualquer coisa. Se trata de uma autodescoberta fantástica, uma autodescoberta essencial para saber discernir quem está ou não está com você.

E então eu comecei a enxergar melhor os sentimentos. A delineá-los e, mais do que entendê-los, saber realmente senti-los. Eu comecei a entender que os sentimentos também têm seus momentos e, assim como os próprios momentos, eles têm sua duração e passam. O que sentimos depois é apenas uma projeção, uma lembrança forçada. Um puro masoquismo, uma vontade desnecessária de reviver tudo aquilo.

Quando você verdadeiramente aprende a sentir, você aprende a deixar o sentimento ir, a deixar passar. Desde esse dia eu não sofro mais. A compreensão tem feito parte de mim como eu nunca achei que antes faria. Eu bebi um gole de paz e, agora, minha única ansiedade é por mais.

Agora já consigo me olhar através do espelho sem nenhum vestígio de miopia. Já consigo entender o que sou naquele momento e sei que não será eterno. Agora eu aprendi a ter consciência sobre mim mesma e a chamar pelo nome cada sentimento e vontade que toma conta de mim.

Eu aprendi a me deixar ir.

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About a Perfect Timing

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O que nós estamos fazendo aqui? Realmente é uma coisa que me vem assombrar decorrentes noites, o fato de trocarmos palavras fervorosamente sempre que possível e impossível, mas no fundo não compartilhando nada. Sei da sua vida, do seu cotidiano, mas não sei dos seus pensamentos, do que deste mesmo cotidiano te aflige. Continuo sem saber dos seus medos e conquistas. Continuo sem ser incluída. E então me encontro revivendo os mesmo fantasmas do meu passado, me deixando cair nessa rotina de desamparo – um dejavú indesejável e incontrolável – moldando eu mesma minha sina, forjando a minha dor.

Lembra-se do nosso começo? Aquele início gostoso de encontros casuais, olhares admirados, mentes hipnotizadas pelos lábios defronte a ambos, noites de conversa adentro. Conversas de conteúdo – mesmo que contenham uma ou outra filosofia de bêbado – e sinceras, principal, exclusivas e genuinamente sinceras. Ouso dizer vergonhosamente sinceras. E é honrando esta honestidade toda que tenho que desabar em você e contar: “eu menti…”.

Menti todas as vezes que prontamente disse que estava satisfeita com a nossa situação, porque, a verdade amarga é que não estou – e não sei se algum dia ficarei – feliz e em paz com a inércia do nosso relacionamento. Desculpe-me, achei que eu seria mais elevada que isso, prometi a mim mesma que seria, e não achei que me apegaria tanto a alguém em tão pouco tempo – pelo menos não agora, não depois da tempestade que tem sido dentro de mim – e me assustei com a rapidez que você tomou conta do meu eu por inteiro. Meu corpo e mente anseiam por você, minha pele enrubesce ao ouvir o seu nome, pernas esquecem sua função quando se está por perto, um choque passa pelo meu corpo quando sua mão encosta na minha, subitamente me arrancando do meu devaneio habitual.

Infelizmente, no momento em que eu percebo você relutando sentir o mesmo arrepio, volto ao meu questionamento inicial, a pergunta que me fez refletir: “o que nós estamos fazendo aqui?”. Porém, te peço o favor de tratar essa pergunta como retórica, pois não suportarei outra decaída assim tão perto da anterior. Estou vivendo a filosofia do “viva o agora” e, milagrosamente, nosso “papo furado” diário me faz bem, então ignoro o – grande – arrependimento que certamente se encontra no meu futuro, deixando você me fazer feliz no presente.

No fundo é tudo uma questão de desnivelamento emocional-espiritual. Você entrou na minha vida na hora exata, e eu entrei na sua na errada. Senhoras e senhores, uma salva de palmas para o meu timing horrível. Mais uma vez.

Início

inevitável

Eu gostaria de dizer para você nunca mais encostar seus lábios nos meus, porque é a partir dai que tudo estraga. E é justamente a primeira coisa que a gente faz. Inevitável e irresistível. Eu sei. Porém, destrutivo também. Provoca uma sede compulsiva. Deixa dentro de ti um pouco do outro e esse pouco parece que aumenta a cada novo beijo, a cada nova separação, a cada nova visita. Daqui a pouco vira um muito tão grande que, quando é desfeito, tira um pedaço enorme de ti.

Eu não sei por que é que a gente tem que complicar tanto as coisas. Nada pode ser levado aos poucos – quase que inocente -, como se você quisesse atribuir cada pequeno detalhe de outrem para si. Eu sei que é horrível a angústia de não saber o que é que se tem em mãos, se você pode definitivamente segurá-lo. Mas eu gosto dessa coisa de sentir entre as pontas dos dedos. Dessa coisa de sorrir pelos ares por qualquer coisa boba. De ficar feliz com qualquer insinuação.

Às vezes eu acho que a vida deveria ser feita dessas pequenas provocações. Essas do início de qualquer relacionamento, que mantém viva aquela chama, aquela angústia, aquela vontade de encarar aqueles olhos novamente. Aquela coisa sem pressa, mas que te invade como uma avalanche causada por um pequeno estalo. Eu nunca perdi isso com você, sabia? Eu ainda fico extremamente feliz com cada mensagem. Eu ainda tremo só com a possibilidade de te encontrar. Meu coração ainda dispara cada vez que encontro seu sorriso. Eu ainda sorrio ao imaginar qualquer pedacinho de futuro.

É como se a cada novo encontro ainda fosse a primeira vez. Mas uma primeira vez ainda mais prazerosa. São brilhos nos olhos e sorrisos de quem já sabe, mas parece nunca parar de se surpreender. Parece que a distância aproxima. Lembranças e sorrisos surgem, porque no fundo a gente sabe o que guarda. Nós sabemos que apesar de ser complicado por fora, lá dentro sempre foi simples. Sempre foi desejo e carinho, dos mais verdadeiros.

Eu acho que nós sempre fomos o inevitável. A vontade que eu ainda sinto de você só me comprova isso. Se eu pudesse, teria parado o tempo e o mundo para o momento em que eu estava em suas mãos, na primeira vez. Nós ainda não tínhamos nos beijado, mas você me segurava de um jeito que dizia ‘você é minha’, e eu sem saber já era mesmo sua.

Eu teria parado o tempo e a vida no momento em que dormimos juntos e abraçados. Eu desaceleraria os segundos só para que a sensação de ter seus lábios em minhas costas durasse mais. Eu teria parado o tempo, porque são essas sensações simples que deixam a vida mais leve. Que deixam aquele sorriso no canto da boca o dia inteiro. Que nos fazem encarar qualquer situação com simpatia, com calma.

Eu queria ter parado o mundo para que continuássemos sendo o inevitável, pelo resto de nossas vidas.

Sobre continuar

Fechei os olhos pronta para imergir na escuridão sem pensar em nada, mas Caetano, como sempre, me fez vacilar cantando ‘Agora, que faço eu da vida sem você?’. Não soube responder. Ele insistiu ‘E te querendo eu vou tentando te encontrar (…) Buscando em outros braços seus abraços’. Alguns segundos depois eu pude sentir o calor das lágrimas desenhando caminhos em minhas bochechas. Não tinha mais volta. E dessa vez era Maria Gadú me dizendo ‘Te amei mais que a mim, bem mais que a mim.’ E amei. Amo. Amarei. Sempre muito mais que a mim.

Passei a maior parte do tempo tentando me ocupar, sem deixar espaço nem tempo para a mente começar a me relembrar. Mas, não adianta, não é? A dor, mais cedo ou mais tarde, vem. Chega forte, sem aviso prévio, sem pedir licença e avança. Avança sem ponderar. Te toma de assalto, atropela. Eu achei que com o tempo eu fosse me acostumar, ou pelo menos enfrentar isso de um jeito melhor. De certa forma, agora está sendo mesmo mais fácil de lidar. Mas tudo isso é porque eu ando evitando. Evito lembrar, evito ficar no meu quarto e encarar seu sorriso nas várias fotos espalhadas pelas paredes. Evito andar pelos lugares que costumávamos andar juntas porque eu não aguentaria ver minhas pegadas desacompanhadas das suas. Eu evito pensar, até mesmo, que tudo o que aconteceu realmente foi fato. Estupidez, talvez, eu sei. Mas eu finjo, finjo que você está viajando, que essa é apenas mais uma daquelas épocas difíceis da gente se falar.

Chega a ser ridículo tudo isso. Não adianta eu fingir, tentar maquiar. A verdade nunca vai deixar de ser o que é por detrás de tudo. E aí eu me olho no espelho vestida com a minha armadura mais forte, achando que consigo. E admito, admito que eu nunca mais vou ter você de volta na minha vida. Admito que não importa o que eu faça, tudo agora são lembranças, que eu preciso seguir em frente, que você está num lugar melhor, que Deus sabe o que faz. Baboseira! A verdade é que eu faço isso pra ver se eu consigo acreditar nisso tudo. Se eu consigo parar de culpar a vida por ter tirado de mim uma das coisas que jamais poderiam ter sido arrancadas. Para ver se eu consigo conviver com isso.

Às vezes fico com uma culpa idiota no peito. Culpa de estar vivendo coisas que eu gostaria que você estivesse aqui acompanhando. Culpa por achar que eu devia ter te deixado mais vezes tímida ao dizer que te amava. Culpa por ter ficado um tempo sem procurar notícias suas e você partir sem poder me contar teus últimos sentimentos. Mas aí toda essa culpa se transforma em uma saudade imensa dos nossos longos bate-papos. Se transforma na dura realidade de que eu já não posso mais pegar o telefone e te ligar angustiada só para ouvir você dizer que vai ficar tudo bem. Vai ficar tudo bem?

Eu continuo olhando para o céu e rezando para que você de alguma forma possa me ouvir. Eu continuo lembrando de você toda vez que alguém elogia a tatuagem que fiz em sua homenagem. Eu continuo tentando imaginar onde é que você está. Assim como eu continuo seguindo, só para fingir que a sua falta não me dói tanto.

memories

Sinto muito

Sinto, e sinto muito. Sinto sua falta muito mais do que eu gostaria. Sinto sua falta em intervalos de tempo, intervalos intensos. E não há mais ninguém para quem eu possa dizer isso a não ser a mim mesma e a você, se um dia você chegar a ler essa carta. Uma vez escutei que sentir falta é não ter mais esperanças, caso contrário seriam apenas saudades. Sentir falta é saber que não vai voltar, e talvez por isso esteja doendo tanto. Depois de tanto tempo, de tantas coisas, acho que me apeguei à ideia de que você voltaria, mais cedo ou mais tarde. Porque era isso que você fazia. O que nós fazíamos. O que sempre fizemos. Mas agora…

Agora eu sinto, e muito. Sinto por você, por mim. Pelas decisões e escolhas que fizemos. Sinto por saber que não poderia ter sido diferente. Sinto por achar que um dia seja diferente. Sinto por esperar. Eu só não sei exatamente o que estou esperando. Se é algum sinal, alguma escolha que mude os caminhos, algum tipo de esperança que transforme essa falta em apenas saudade ou numa lembrança boa. Mas é só isso o que posso fazer agora: sentir.

Não vou entrar na discussão de certo ou errado. De motivos. De nada. Nós sempre tivemos nossas opiniões e jamais mudaríamos pelo outro. Mas há mudanças acontecendo, inegável. E talvez uma conversa fosse suficiente. A única coisa que eu vim dizer nessa carta é que eu sinto, e muito. A sua falta, principalmente. E se eu não posso dizer isso a mais ninguém, então que seja a você. Sem intuito nenhum. Se algum dia você sentir também, leia isto. Você sabe que algumas linhas minhas sempre serão dedicadas a você, faz parte da minha literatura escrever o que sinto.

Sabe, uma das coisas que eu aprendi longe de você, quando tentava reencontrar a paz, é que entre amores, paixões e controle só há perdições. É inevitável não tropeçar. E eu fico tentando não ficar em silêncio, para que a agitação da minha mente não me impeça de evoluir. Eu sei que a vida é um processo de abrir mão das coisas e considere como uma prova de que eu te amo todas as minhas tentativas de fazer isso dar certo. A verdade é que a gente quer tanto que as coisas permaneçam, tenta acreditar que é melhor ser feliz da maneira que se pode, porque uma única mudança pode estragar tudo. Mas a verdade é que nós merecemos mais do que isso. Eu sei que é difícil, mas eu mereço mais do que estar perto de você por medo de ser destruída se eu não ficar.

Mas essas são reflexões para serem discutidas depois. As ruínas ainda estão recentes e eu só preciso de tempo para senti-las. Para reconhecer e dar a chance para que abram portas à transformação. Por enquanto eu continuo sentindo, e muito. E eu espero que você sinta.

sinto